UPP não é sinônimo de pacificação

A política de segurança para territórios dominados pelas dinâmicas e regras do tráfico de drogas, através das UPPs, parece ter chegado a um ponto de crise, não mais se desenvolve e, pior que isso, têm deixado nítido o que, ao meu ver, é o seu objetivo de fato, ou seja, possibilitar a exploração do pequeno aumento de renda dos mais pobres nos últimos anos: com a UPP abra-se espaços para a especulação imobiliária e “regularizam-se” os serviços de fornecimento de água, energia elétrica, TV por assinatura, telefonia e internet e os gatos dão lugar a contas, em muitos casos, com valores exagerados. Ou seja, com a UPP quem ganha é o capital e não as pessoas que vivem no território, que continuam sem acesso a serviços públicos de saúde, educação e transporte adequados, continuam sem possibilidade de expressão, sem liberdade de ir e vir, sem o atendimento das suas demandas e direitos pelo Estado e, agora, com a extorsão das empresas de energia, água, comunicação e TV por assinatura. O interesse é na capacidade de consumo das pessoas e não nas vidas das pessoas que moram no território.
Do meu ponto de vista, a política de UPPs não é nada mais que ocupação militar e, pois, cerceamento de liberdades democráticas e direitos humanos. A UPP é o que podemos denominar de milícia do capital, incrementada pela visão escravagista, racista e fascista do poder, que a polícia executa com competência e que é política e economicamente sustentada por interesses da mídia corporativa, dos setores de construção civil, telecomunicações, energia, mercado financeiro e, ao que parece, pelo próprio tráfico de drogas, que lucra mais quando consegue uma “boa relação” com polícia, governo e empresas.
UPP não é sinônimo de pacificação, que é outra coisa, talvez simplesmente a possibilidade de “andar tranquilamente na favela onde nasci”. Nas favelas do Alemão e da Rocinha organizam-se resistências potentes, críticas e criativas, em formas de protestos, assembleias populares e manifestos, que muito além do enfrentamento físico contra opressão/repressão policial e das denúncias das ilegalidades, desrespeitos e crimes cometidos pela polícia, resistem democraticamente, explicitam o que é pacificação e apontam caminhos.
O manifesto que reproduzo abaixo, construído de forma colaborativa e aprovado na 2ª Plenária Popular do Alemão, realizada em 17/03/14, é uma importante referência neste debate:

QUEREMOS SER FELIZES E ANDAR TRANQUILAMENTE NA FAVELA EM QUE NASCEMOS

Durante décadas o Estado não reconheceu a favela como parte integrante da cidade, negando aos seus moradores direitos básicos. Hoje depois de 3 anos de ocupação da segurança pública no Complexo do Alemão, percebemos que ainda temos um longo caminho a seguir na garantia de direitos, uma vez que, o braço do Estado que mais entra na favela é o braço armado. Sem escola não há pacificação, sem saúde não há pacificação, sem saneamento básico não há pacificação, sem lazer não há pacificação. O símbolo da paz no Rio de Janeiro não podem ser as armas, a pistola, o fuzil e os blindados.
Nas ultimas semanas, as manchetes dos jornais foram tomadas por matérias sobre os conflitos que acontecem cotidianamente nas favelas com a ocupação policial – as UPPs, sobretudo no Complexo do Alemão. Junto com as manchetes veio as declarações do secretário de segurança pública do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, que apresentou a opção de ampliar a militarização como possível solução para os problemas. Parece que ao seu ver, toda solução de conflito passa pela ampliação da presença da polícia e de outras forças militares no território.
Entendemos que essa perspectiva precisa ser mudada, uma vez que, é possível perceber que só a presença da polícia nos territórios ocupados não tem trazido a paz. Existem vários casos, em favelas com UPP de abuso de poder, arbitrariedades e desaparecidos, como é o caso do Amarildo , na Rocinha, e da morte de jovens por policiais da UPP como: André de Lima Cardoso, 19 anos, Pavão-Pavãozinho; José Carlos Lopes Júnior,19 anos, morador de Sao Joao; Thales Pereira Ribeiro D’Adrea, 15 anos, Morro do Fogueteiro; Jackson Lessa dos Santos, 20 anos, Morro do Fogueteiro; Mateus Oliveira Casé, 16 anos, Manguinhos; Paulo Henrique dos Santos, 25 anos, Cidade de Deus; Aliélson Nogueira, 21 anos, Jacarezinho; Laércio Hilário da Luz Neto, 17 anos, Morro do Alemão e Israel Meneses, 23 anos, Jacarezinho. Nesta política não podemos deixar de citar os policiais mortos na ação suicida do Estado. Não aceitamos essas mortes, nenhuma vida vale mais que a outra e é preciso que o Estado se responsabilize. Afinal qual é a paz que queremos promover? A paz bélica ? A paz militarizada?
Nesse domingo, 16, a capa do jornal extra anunciava que os moradores de favela tinham ido as ruas se manifestar a mando do tráfico e estariam recebendo dinheiro para isso. Mas uma vez a grande imprensa tem sido uma ferramenta de criminalização dos movimentos populares e da favela. Repudiamos totalmente a forma com que os meios de comunicação tem feito a cobertura da ação da polícia no Complexo do Alemão e em outras favelas. Entendemos que o morador de favela não pode ser visto como um inimigo. O governo diz que as favelas estão pacificadas, mas então porque tanta arma ostentada pela polícia? Queremos mais diálogo entre os moradores de favela e segurança no território, queremos a liberdade de ir e vir, queremos mais escolas, saneamento básico para morador ao invés de teleférico para turista, queremos a garantia do direito de expressão onde o baile funk se insere, não queremos a violação do domicílio sem mandato. Entender as demandas do Complexo é simples, entender as demandas da favela é simples , porque o papo é reto.
As propostas de “PAZ” devem ser construídas coletivamente com toda a favela. Não se constrói uma politica de paz, com o pé na porta, agredindo gratuitamente seus moradores, não se constrói paz com caveirão. No atual modelo, “independente de quem manda”, os moradores continuam sem ter sua voz ouvida.Temos a consciência que o pobre tem seu lugar.
ASSINAM
Ocupa Alemão
Instituto Raízes em Movimento
Alemão de Notícias
Complexo do Alemão
Educap
Jornal VOZ DA COMUNIDADE
Favela não se Cala
IDDH
Rede Universidade Nômade
O Cidadão
Fórum Social de Manguinhos
Fórum Rede da Juventude
Coletivo Mariati
Favela em Foco
Norte Comum
Observatório de Conflitos Urbanos

Fonte: http://uninomade.net/tenda/manifesto-da-ocupaalemao/

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