Uma ciclovia que pode ser chamada de “ponte para o futuro”

Em outubro de 2008, quando perguntado sobre os efeitos no Brasil da crise da economia americana naquele momento, provocada por uma retração do crédito oriundas dos empréstimos Subprime, Lula disse que, apesar de nos EUA ser “um tsunami”, chegaria aqui como “uma marolinha que não dá nem para esquiar” (ou seria surfar?). Já Dilma, em junho de 2015 (quando já sentíamos que crise não era marolinha), reformou o que Lula afirmou em 2008, disse que naquele momento (2008) foi uma marolinha, mas a marola virou uma onda porque “o mar não serenou”.

Podemos dizer que, de fato, o mar não serenou, ficou mais bravo, fez uma forte ressaca chegar aqui e vem produzindo desastres. O desabamento da ciclovia “Tim Maia”, na Zona Sul do Rio de Janeiro, no último dia 21 de abril, se transformou num símbolo do que o mar que não serenou faz com o Brasil, mas também numa caricatura da falta de transparência do governo federal sobre a real situação da economia (que foi importante para as vitórias de Dilma nas eleições de 2010 e, principalmente, de 2014), e do que vem causando no Brasil e no Rio de Janeiro a aliança entre PT e PMDB, agora terminada pelo PMDB que, além de não querer ser sugado pelas fortes ondas da crise econômica, passou a ver na crise política e na impopularidade de Dilma a possibilidade de ocupar a Presidência da República (pela terceira vez e sem vencer eleições diretas).

A ciclovia contratada pela gestão municipal corrupta de PMDB e PT, e construída por uma empreiteira igualmente corrupta, é a melhor representação do que é a “ponte para o futuro” sobre a qual o Brasil terá que atravessar a crise econômica em que se encontra. A cidade olímpica dos golpes nos direitos e das mortes provocadas por Cabral, Pezão, Paes, Cunha, Piccianis, etc, com apoio e cumplicidade do PT que agora se diz vítima de um golpe e de uma traição do ex-aliado, me parece uma triste amostragem do que a corrupção da democracia que as relações espúrias entre Estado, partidos, políticos e governos com o poder econômico têm feito no Brasil.

O atual processo de impeachment é uma briga de ex-sócios que se desentenderam, não uma disputa de projetos. E o desabamento da ciclovia que devia se chamar “ponte para o futuro” virou caricatura do que o, agora rompido, casamento político fisiológico produziu, da falta de condições de governabilidade com Dilma, da ilegitimidade política de Temer na presidência e da lama podre composta por nossos partidos que a barragem do sistema político corrupto não consegue mais conter.

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