Um ponto de vista sobre a (farsa da) polarização

Estamos numa semana importante, tensa, com impactos políticos da divulgação da lista de beneficiários de propinas advindas de recursos desviados da Petrobrás e depoimentos importantes à CPI que “investiga” as denuncias de corrupção na empresa. Além disso e para aumentar a tensão, a semana terminará com manifestações em defesa do governo do PT (13/03) e manifestações pró-impeachment da Presidenta Dilma (15/03). Está acirrada o que ao meu ver é uma falsa polarização que PT, PSDB e seus aliados e adversários vem alimentando.

O pronunciamento da presidenta no domingo, 08 de março, e suas declarações à imprensa na segunda-feira, acrescidas de declarações que senador Aécio Neves e outros vêm fazendo pela oposição ao longo da semana só reforçam a impressão que essa polarização é uma farsa, uma disputa discursiva de poder e não disputa concreta de projetos, um “terceiro turno” que interessa aos grupos políticos que disputam.

Temos de um lado a direita, digamos, tradicional, hoje liderada pelo PSDB e o oposicionismo; de outro lado, o PT e o governismo; no meio, e como elemento que produz o odor fétido do bolo fecal, o PMDB, que há muito tempo é o que tem de mais podre na lata de lixo que é o sistema político representativo no Brasil, o principal agente de corrupção do nosso jovem e frágil “Estado Democrático de Direito”. Felix Guattari diz “que não só estamos na merda até o pescoço, mas que a merda penetra em cada um de nós mesmos, em cada uma das nossas organizações”. Minha impressão é de que a PMDBetização não só dos partidos, mas também das nossas práticas, vem prevalecendo na sociedade brasileira, sendo notória nas eleições.

A campanha de Dilma acusou o PSDB de propor políticas antidemocráticas e ataque aos direitos, mas começou o segundo governo fazendo exatamente isso, mudanças no seguro desemprego que reduz os atuais direitos e veto do índice de correção da tabela do imposto de renda sobre os salários (com proposição de um índice menor, fazendo com que o PMDB se apresentasse como defensor de uma correção mais justa). Outra medida do governo da “pátria educadora” foi cortar gastos, inclusive da educação.

Em 2013 e 2014, diante da possibilidade de trabalhar por políticas de radicalização democrática a partir de reivindicações apresentadas pelas manifestações populares de junho/2013, a resposta do governo Dilma foi a aliança com o neoescravagismo e a repressão por um lado, e por outro o atendimento total às exigências empresariais de uma copa cujo marketing dizia que seria a copa das copas, mas que se revelou a copa das cópulas. É bom lembrar aqui, muito além de reconhecer, que as políticas de democratização postas em prática pelo primeiro governo Lula são frutos da relativa abertura que o governo tinha ao que vinha dos movimentos sociais. Mas essa abertura, a partir do segundo governo, foi diminuindo até fechar completamente e com aporte teórico-político de expressivos(as) intelectuais de “esquerda”. Aconteceram, para os mais pobres, melhorias nas condições de vida e a abertura de oportunidades que não existiam, é verdade, mas porque houveram, no início, medidas tomadas na relação com expressões dos movimentos sociais e, ao que parece, com a concessão do capital parasitário. Porém, hoje, não visualizo mudanças de fato, mudanças estruturais nas instituições e mudanças na forma de governar, que me parecem continuar as mesmas na prática, apesar dos muitos fóruns de diálogos organizados, comissões, conselhos, seminários e conferências. Na economia, por exemplo, fazer crescer o bolo para dividir (desigualmente) continua sendo forma de gestão. Pequenas fatias do bolo, em forma de bolsa família, cotas, expansão da educação e aumento real do salário mínimo, foram para os mais pobres e para os grupos racisados. Mas agora que o bolo parou de crescer e deve ficar assim por algum tempo, podemos arriscar a dizer quem vai ficar sem fatia alguma. Na atual conjuntura, e não apenas em âmbito federal, governos, legislativos e instituições judiciárias e de segurança, se apresentam de maneira contundente e cínica como expressões da Casa Grande que sempre foi o Estado Brasileiro.

A violência, a mentira e a chantagem parecem ter virado a forma de fazer política da cúpula PT e seus porta-vozes de base. Agora qualquer crítica é coisa de coxinha, venha de qualquer lugar, organização ou pessoa. O panelaço da elite só ajuda o governismo a fazer-se de vítima e alimentar a polarização. Os discursos de impeachment pelo oposicionismo e de golpe pelo governismo é conversa que nem para boi dormir sem serventia, faz parte do festival de distorções e chantagens que é essa falsa polarização. E enquanto acontece a guerra midiática e suas tentativas de manipulação da opinião pública através de opiniões publicadas, o governo faz, na prática, o que a direita racista sempre fez e faria neste momento (como Aécio deixou claro na sua campanha eleitoral): a conta do “ajuste” é dos pobres e dos que vivem do seu trabalho; as forças armadas violam direitos humanos na Favela da Maré; as polícias da Bahia (governo do PT), de São Paulo (do governo do PSBD) e do Rio de Janeiro (governo de PMDB-PT) fazem a mesma coisa, assassinam pobres e negros todos os dias; a educação perde recursos no mesmo valor do que foi gasto em reformas e construções de estádios padrão FIFA; a maioria dos municípios brasileiros, lá onde vivem de fato as pessoas, estão falidos; o delírio do dirigismo desenvolvimentista provoca prejuízos à qualidade de vida nas cidades, à juventude negra, aos povos indígenas, ao meio ambiente: obras para atender ao capital parasitário e não ao bem viver das pessoas, remoção dos pobres de regiões que agora interessam à especulação de grandes empresas, militarização criminosa nas favelas, racismos, desmatamentos, crise hídrica, inflação, desemprego… O PT faz parte dos podres poderes que produziram a atual crise política. O PT é, hoje, a mesma coisa que qualquer outro PFDP do nosso sistema político representativo, que é, este sim em grande proporção, a maior corrupção da democracia. A farsa da polarização é só disputa pelo poder, pois as políticas concretas parecem as mesmas, revela que não há segunda via neste contexto. E confirma que o que está em crise é a representação e as suas instituições. Aliás, vale lembrar, no dia 17 de junho de 2013, após tentativa de ocupação do congresso nacional por manifestantes em Brasília, o então presidente do Senado e do Congresso, senador Renan Calheiros, disse, em nota à imprensa, que “o Congresso Nacional reconhece a legitimidade de manifestações democráticas como as havidas hoje, desde que as instituições sejam preservadas”. Ora, o que a democracia precisa é justamente o contrário, é a destruição ou, pelo menos, a transformação radical de algumas instituições, entre elas o sistema político que, repito, é um sistema que corrompe a democracia.

A brecha democrática aberta pela multidão nas ruas e pela multiplicidade de lutas que constituíram o levante de junho de 2013, parece não ter sito suficiente para constituir um devir comum das lutas. Iniciativas interessantes, como assembleias populares e propostas de criação de novos partidos-movimentos têm caído nas formas da representação e perdem a oportunidade de serem expressão do comum. Vale lembrar aqui que uso a palavra comum como denominação de uma multiplicidade de singularidades em relação de interdependência, tendo como referências o pensamento de Antonio Negri e o conceito de Ubuntu (sou porque nós somos).

Ao meu ver, a constituição de uma segunda via democrática não passa pela tradicional forma partido, que é corrupta na essência, mas por um outro tipo de construção, algo que não sei o que é, mas que produza, em coletivo, coletivos “inteiros” e não “partidos”. Penso, portanto, que o que há a ser feito é começar e levar adiante dinâmicas de resistências e (re)existências, na relação das singularidades, que como toda relação entre iguais é algo cuja produção é imprevisível, porém aberta a ideais, poéticas e, a partir delas, experimentações de novas formas. Talvez, através do Odjango, da radicalização dos círculos, ou seja, do uso emancipatório das conversas e experimentações coletivas, seja possível constituir uma poética do comum.

Uma opinião sobre “Um ponto de vista sobre a (farsa da) polarização

  • 14/07/2016 em 16:26
    Permalink

    Bom saber que há por aí almas imúnes a nossa farsa dos “donos do poder”.
    Ótima reflexão.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *