Porque não voto em Dilma e, provavelmente, em nenhuma outra candidatura

Eu não votarei em Dilma no próximo dia 05 de outubro, apesar de ter uma carteirinha do PT. A entrada de Marina no páreo como candidata à Presidência nada tem haver com isso, pois eu já havia tomado a difícil decisão de não votar em Dilma. Difícil não por ser filiado, o que para mim não tem valor nenhum, ao contrário dos que veem a estrela vermelha como uma transcendência ou dos que fazem da estrela a sua boquinha. Mas, difícil por eu participar desde 1989, através do voto e do ativismo no movimento popular e no movimento negro, de uma perspectiva que o partido parecia sustentar e que o governo Dilma vem destruindo com seus acordos de governabilidade. Penso que não continuar no poder é melhor para o PT e para uma retomada das políticas de esquerda (existe ainda no PT grupos não governistas, atravessados pelas lutas, que querem que o T prevaleça), pois isso é fundamental para uma renovação na práxis deste campo do espectro político, principalmente neste novo ciclo de lutas inaugurado pelos movimentos iniciados em maio-junho de 2013. Como diz Franz Fanon (em Os Condenados da Terra), “Devemos fazer uma política nacional, isto é, antes de tudo uma política para as massas. Nunca devemos perder o contato com o povo… O partido não é um instrumento nas mãos do governo. Muito pelo contrário, o partido é um instrumento nas mãos do povo. É ele que decide a polícia que o governo aplica. O partido não é, nunca deve ser o escritório político onde se encontram confortavelmente todos os membros do governo e os grandes dignatários do regime”.

Dilma e o PT governista, ao meu ver, se acomodaram ao modus operandi do (bio)poder, inclusive apoiando repressões violentas e violações de direitos humanos, perderam a firmeza na defesa de elementos fundamentais para a universalização dos direitos, com seus comportamentos em temas como comissão da verdade, racismo e promoção de igualdade racial, homofobia, democratização da mídia, meio ambiente, povos indígenas, ribeirinhos e quilombolas, manifestações, direitos humanos e outros temas, distanciaram-se das (bio)políticas produzidas pelas experiencias de subjetivação e produção de democracia de fato. Houveram avanços democratizantes com Lula, que estacionaram com o desenvolvimentismo retrógado de Dilma e com a atual acomodação do seu governo e do governismo às instituições ainda vigentes, como a da “segurança nacional”, aquela que, por exemplo, ocupa a Favela da Maré com desprezo e desrespeito racistas às pessoas que vivem na região. Vejo hoje Dilma e o PT governista como aliados subservientes das oligarquias, corporações e interesses parasitários, racistas e fascistas, que não se importam em usar da violência, e até prender e matar, para terem seus fins concretizados (normalmente através do Estado e do financiamento de campanhas eleitorais). Cabem aqui, novamente, as atualíssimas palavras de Franz Fanon: “o racismo da jovem burguesia nacional é um racismo de defesa, um racismo baseado no medo”, um “racismo de desprezo, é um racismo que minimiza”.

Marina, entre as opções que temos nessa eleição com alguma chance de vencer, me parece o que há de menos pior. Posso, obviamente, estar falando bobagem, principalmente se levarmos em consideração as alianças e financiadores da campanha de Marina (que, sabemos, não são diferentes das alianças e financiadores da campanha de Dilma). Seriam as mesmas bobagens se fossem ditas em relação a Dilma. O que me incomoda bastante em Marina é o que me parece ser uma subserviência dela a uma visão de mundo conservadora, pois no Brasil ser conservador é ser reprodutor do racismo e isso para mim, como militante da luta contra o racismo, tem um peso muito grande. Porém, por outro lado, Marina é Mulher Negra, sua história de vida e as lutas que a formaram podem ter algum peso nas decisões que irá tomar como Presidenta e a faça promover alguma abertura ao desejo de democratização que se expressa desde maio-junho de 2013. Apesar de tudo que considero negativo em Marina, ela me parece, hoje, ser mais petista em relação aos movimentos sociais do que o PT governista.

Nas demais candidaturas nada me atrai, vejo apenas conteúdos autoritários ou ausência de conteúdos democráticos. À direita, começando por Aécio Neves, nem tapando o nariz dá para votar; à esquerda (se é que podemos dizer que isso existe nesta eleição) me parece só existir discursos de quem sabe que não tem a melhor chance e fala qualquer coisa simpática para manter o seu pedaço nesse bolo de merdas que é a forma partido e o sistema político no Brasil.

Entretanto, do meu ponto de vista, o pior de tudo é a pouca discussão política em torno de algo que para mim as candidatas e os candidatos deveriam ter a dignidade de discutir: nas e das ruas surgiram demandas reais, que constituem elementos para uma agenda de políticas do comum: transporte público, educação e saúde públicas de qualidade, escolas como pontos de culturas, acesso público às estruturas de informação e comunicação, democratização da mídia, salário de cidadania, orçamento participativo, intervenções urbanas que priorizem melhoria das condições de vida e não lucros para empresários, fim das polícias militares (desmilitarização), definição de fundos púbicos para avanços nas políticas para promoção da igualdade racial, de respeito à diversidade sexual, de gênero e religiosa, garantia dos direitos de povos indígenas, quilombolas e das florestas, reforma radical do nosso apodrecido e anti-democrático sistema político, entre outras. Propostas fundamentais para um novo ciclo de radicalização da democracia, neste pós-junho-2013.

Enfim, nesta eleição eu, por enquanto, sou do #nãovaitervoto. E mesmo se eu resolver votar numa das candidaturas que se apresentam, minha aposta é no #vaiternósnaruadenovo, pois penso que é só fazendo multidão, e novas ações afirmativas a partir dos movimentos, é possível produzirmos processos de democratização. Para mim democracia, entre outras coisas, é principalmente lugar da dignidade, o que não parece ser uma premissa do nosso apodrecido sistema político representativo, que é a corrupção da democracia. É um sistema que não merece respeito e, como tal, merece ser destruído por uma nova constituinte, feita pelas lutas dos “de baixo”.

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