04/08/2020

O racismo no Brasil, em especial o “acadêmico”, demanda de nós muita atenção

Por Alexandre do Nascimento

Não conheço muito da obra de Beyoncé, na verdade conheço quase nada, mas o polêmico texto “Filme de Beyoncé erra ao glamorizar negritude com estampa de oncinha”, da antropóloga e historiadora Lilia Schwarcz (https://www1.folha.uol.com.br/…/filme-de-beyonce-erra…), me levou a assistir o trailer do filme. E, diante do que assisti e do que pessoas me chamaram atenção sobre a verdadeira intenção de Beyoncé, que a própria artista expressa em https://www.youtube.com/watch?v=JJUIHTSBFMA: que o filme ajude a mudar a perspectiva do mundo sobre a palavra “preto”, que para ela é inspiração, amor, força e beleza. Mas apesar da intencionalidade política do projeto, “Black is king” me parece mesmo ainda um pouco distante do sentido que denotam conceitos como “Ubuntu” e movimentos como “Decolonize This Place”. Uma boa reflexão sobre isso aparece na crítica de “Black is King” feita pela ativista negra Judicaelle Irakoze em https://www.essence.com/…/beyonces-black-is-king…/ (tradução em https://medium.com/…/por-que-devemos-ter-cuidado-ao…).

Judicaelle Irakoze diz que devemos ter um olhar criterioso sobre “Black is King”, que segundo ela celebra reinos africanos e ignora que a África, mesmo antes dos brancos chegarem, não era exatamente um paraíso, também tinha escravidão, hierarquias violentas e opressão, algo que não devemos romantizar. Para a autora “Beyoncé pode amar de uma forma melhor a África criando arte descolonizante que diz aos negros que não precisamos ser associados a uma monarquia para importar”.

De fato, nossa luta histórica contra o racismo é também luta contra qualquer tipo de discriminação e, pois, contra o império da branquitude ou outro império qualquer, suas estruturas objetivas e subjetivas de sustentação e suas práticas. Uma das práticas da tirania e também da branquitude é se apresentar como portadora de verdades, valores universais e, de forma desonestamente identitária, tentar desqualificar o “identitarismo” que preside as est-éticas da luta negra antirracista. É o que, ao meu ver, faz Lilia Schwarcz, em sua crítica.

“Black is King” é sim passível de crítica, como qualquer outra obra. E o problema que enxergo na crítica de Lilia Schwarcz é maior na forma do que no conteúdo. Na estética do texto de Lilia, do meu de vista, há elementos característicos do racismo (indiferença, arrogância, olhar de superioridade, deboche), que nos mostram o quanto o racismo chamado de “estrutural” é, de fato, estruturante de seu pensamento. Talvez glamorizar reinos africanos seja um ponto de crítica, mas isso não é o mesmo que incomodar-se por Beyoncé “glamorizar a negritude”, que me parece ser o cerne da crítica de Lilia, como ela anuncia no título do seu texto. Mas porque Lilia enxerga problema em “glamorizar a negritude”? Porque Lilia diz que não se deve valorizar/celebrar o que Aimé Cesare criou para nomear o que para ele é “uma maneira de viver a história dentro da história; a história de uma comunidade cuja experiência parece, em verdade, singular, com (…) suas lembranças distantes, seus restos de culturas assassinadas”? Minha impressão é que Lilia tenta desqualificar até mesmo a intenção de Beyoncé de usar a sua arte em favor do fortalecimento da consciência negra e deixa escapar em sua escrita que sua adesão ao manifesto contra as cotas em 2006 pode ter sido por convicção e não por descuido.

Enfim, ao ler o teu texto de Lilia, principalmente na última frase do último parágrafo, fiquei com a imagem de uma Sinhá em sua sala de jantar na casa grande, incomodada com a presença negra glamoroza naquele espaço. Lilia se esforça em ser referência para negros e negras e aliada da luta antirracista aqui no Brasil, mas, vez e outra, precisa desculpar-se por ter feito/dito o que realmente pensa.

O racismo no Brasil, em especial o “acadêmico”, demanda de nós muita atenção.