Mais uma vez o Jornal O GLOBO se expressa como porta-voz de interesses racistas da elite brasileira

Em 17/10/1944, o jornal O GLOBO colocou em seu editorial o seguinte: “Uma corrente defensora da cultura nacional e do desenvolvimento da cena brasileira está propagando e sagrando a ideia da formação de um teatro de negros, na ilusão de que nos advenham daí maiores vantagens para a arte e desenvolvimento do espírito nacional. É evidente que semelhante lembrança não deve merecer o aplauso das figuras de responsabilidade no encaminhamento dessas questões, visto não haver nada entre nós que justifique essas distinções entre cenas de brancos e cenas de negros”. Tratava-se de uma crítica ao Teatro Experimental do Negro – TEN, companhia de teatro fundada por Abdias do Nascimento, que “se propunha a resgatar, no Brasil, os valores da pessoa humana e da cultura negro-africana, degradados e negados por uma sociedade dominante que, desde os tempos da colônia, portava a bagagem mental de sua formação metropolitana europeia, imbuída de conceitos pseudo-científicos sobre a inferioridade da raça negra. Propunha-se o TEN a trabalhar pela valorização social do negro no Brasil, através da educação, da cultura e da arte” (1). Ou seja, a iniciativa de Abdias e seus colaboradores, que visava dar visibilidade, no campo das artes dramáticas, à cultura afro-brasileira e oportunizar um espaço a atores e atrizes negros e negras no teatro brasileiro, incomodou o poder e seu principal veículo de opinião, o Jornal O GLOBO, expressou sua crítica (notadamente racista) à presença de negros num setor elitizado e racializado.

Em 24/07/2016, quase 72 anos depois, o mesmo jornal, também em editorial, agora sobre o que no título do texto chamou de “injusto ensino superior gratuito”, publicou o seguinte:

“Para combater uma crise nunca vista, necessita-se de ideias nunca aplicadas. Neste sentido, por que não aproveitar para acabar com o ensino superior gratuito, também um mecanismo de injustiça social?(…) O momento é oportuno para se debater a sério o ensino superior público pago. Até porque é entre os mecanismos do Estado concentradores de renda que está a universidade pública gratuita. Pois ela favorece apenas os ricos, de melhor formação educacional, donos das primeiras colocações nos vestibulares. Já o pobre, com formação educacional mais frágil, precisa pagar a faculdade privada, onde o ensino, salvo exceções, é de mais baixa qualidade. Assim, completa-se uma gritante injustiça social, nunca denunciada por sindicatos de servidores e centros acadêmicos. (…) Quanto aos estudantes de famílias de renda baixa, receberiam bolsas. Além de corrigir uma distorção social, a medida ajudaria a equilibrar os orçamentos deficitários das universidades, e contribuiria para o reequilíbrio das contas públicas”(2). (Grifos meus)

Vale ressaltar, que entre 2001 e 2012, período de um intenso debate público sobre a proposta de cotas para negros (que acabou se concretizando em várias instituições), o mesmo jornal em editoriais e em vários artigos de opinião publicados, expressou veementemente a sua discordância, inclusive com argumentos de que a política de cotas instituiria uma injustiça, além de comprometer a qualidade do ensino e das atividades das instituições. A resistência conservadora à proposta de cotas para negros organizada pelo diretor de jornalismo à época, em parceria com alguns articulistas do jornal, em seus fracos argumentos, não conseguiu produzir uma opinião pública potente contra as cotas, por não conseguir, apesar das tentativas, invisibilizar que o racismo está na origem das desigualdades raciais presentes na sociedade brasileira.

Na Finlândia, onde a educação é considerada a de melhor qualidade no mundo, as escolas e universidades são 100% estatais e gratuitas, públicas de fato (3). No Chile, a gratuidade do ensino superior passou a vigorar este ano, num processo que até 2020 deve transformar todas as universidades estatais em universidades públicas (4). Ambos são países que, vez e outra, a nossa mídia, inclusive as Organizações Globo, apresenta como exemplos de seriedade em políticas educacional e econômica. Porém, parece que para os mesmos que divulgam e celebram tais “exemplos”, discordam de que o Brasil os considerem como exemplos.

A maior empresa de comunicação do país, evidentemente, não expressa apenas pontos de vista de seus donos, mas interesses de determinados setores da sociedade. Desconheço editoriais em que, antes das políticas que promoveram uma pequena abertura do ensino superior público para pobres e negros, o jornal apresenta críticas ao “injusto ensino superior gratuito” brasileiro. Para a família Marinho e a elite da qual as Organizações Globo são porta-vozes, não é injusto um teatro sem expressões, artistas e produções negras, ou uma universidade pública sem diversidade étnico-racial em seus currículos e quadros docentes e discentes (que para eles, agora que está deixando de ser exclusivamente para as pessoas mais abastadas, deve ser paga). Mas são injustas a universidade pública de fato, as políticas de cotas e renda mínima, as greves de professores (5), a taxação das grandes fortunas (6).

De fato, quando processos sociais de democratização fazem a nossa democracia parecer algo além da hipócrita declaração formal de que “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza” (7), incômodos conservadores ganham espaços no jornal. Da mesma forma, quando crises abatem o que incomoda, proposições oportunistas nada democráticas também ganham espaço, como me parece ser o caso do artigo do editorial de 24/07/2016.

As Organizações Globo são, a meu ver, ao lado de Folha de São Paulo, Revista Veja e outros veículos, uma das expressões do racismo parasitário de uma elite que fez e faz riqueza com o trabalho escravo, a superexploração do trabalho mal remunerado, o autoritarismo, a gestão dos fundos públicos em favor dos seus interesses, tudo isso sob proteção e através de um Estado, formalmente dito “democrático de direito”, que para essa elite deve continuar a ser mínimo e implacável para os pobres, principalmente para negros(as) pobres.

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