“Eu até acho que eu sou afrodescendente de tanto que apanhei e gosto de apanhar”

Meu Avô costumava usar a frase “apanhou feito boi ladrão!”. Dunga, ex-jogador de futebol bem sucedido e técnico fracassado da seleção brasileira na Copa do Mundo de 2010 e na Copa América de 2015, inovou ao substituir “boi ladrão” por “afrodescendente”, acrescentando que negro gosta de apanhar. Na última sexta-feira, 26 de junho, com a arrogância que lhe peculiar, durante uma entrevista, Dunga disse: “(…) Eu até acho que eu sou afrodescendente de tanto que apanhei e gosto de apanhar. Os caras olham para mim: ‘Vamos bater nesse aí’. E começam a me bater, sem noção, sem nada” (grifos meus). Veja a declaração de Dunga em em https://www.youtube.com/watch?v=0v4piF37jA4.

No mesmo dia, provavelmente após umas puxadas de orelhas em Dunga, a CBF publicou uma retratação do técnico: “Quero me desculpar com todos que possam se sentir ofendidos com a minha declaração sobre os afrodescendentes. A maneira como me expressei não reflete os meus sentimentos e opiniões“ (grifos meus). Embora o pedido de desculpa diga que a declaração reveladora do seu pensamento sobre a pessoa negra não reflete o que ele sente, na opinião de Dunga:
1) Escravo = Afrodescendente
2) Afrodescendente deve apanhar por que é afrodescendente e porque gosta de apanhar (nem boi ladrão gosta de apanhar, mas negro gosta).

Além disso, no texto de retratação publicado no site da CBF, Dunga pede desculpa apenas a quem se sentiu ofendido. Talvez eu esteja sendo muito exigente e muito professoral, mas penso que o pedido de desculpas devia ser ao Brasil, principalmente para as crianças, pois trata-se de uma declaração que ofende um propósito que consta na Carta Constitucional, no Código Penal, no Estatuto da Igualdade Racial, na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Na verdade, penso que a CBF, que diz repudiar o racismo, não deveria manter Dunga como técnico da seleção após declaração que desrespeita mais da metade da população brasileira.

Em tempo: Peço a Dunga, caso deixe a CBF, que não tente ser instrutor da Academia da Polícia Militar ou da Escola de Magistratura, pois as consequências serão muito piores do que ter a seleção brasileira eliminada pela Alemanha ou pelo Paraguai.

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