Chegamos ao início de 2016, ano de zika, olimpíadas e eleições

Chegamos no início de 2016. Passou janeiro, o carnaval e hoje, quarta-feira de cinzas, “desce o pano”. Amanhã retornamos à rotina. Segunda-feira, se houverem condições materiais, começam de fato as aulas nas escolas. E começamos o ano com uma grave questão de saúde pública para enfrentar, o zika vírus, além do que já estava na pauta, como impeachment, lava jato, zelotes, crises, olimpíadas, eleições, etc.

Tudo indica um ano difícil, com mais produção de inflação, desemprego e escassez de recursos, que justifique juros altos, políticas de austeridade, desinvestimentos em saúde, assistencia social, educação, pesquisa, infraestrutura e em outros setores, fruto das gestões corruptas de instituições públicas (que sequer se consolidaram) deste período destrutivo de neoliberalismo tucano e neodesenvolvimento petista, sempre apoiados/enquadrados pelo que há de mais fétido na política brasileira pós-constituição de 1988, o PMDB. Com ou sem processo de impeachment da presidenta, o golpe nos direitos já houve e vem se desenvolvendo desde de antes da gestão da atual presidenta, com privatizações, ataques aos direitos trabalhistas, entrega de serviços públicos a instituições de corrupção denominadas organizações sociais, aumento da exploração do trabalho via aumento de tarifas e impostos e, se reclamarmos muito, gás de pimenta, balas de borracha, prisões com provas forjadas, punições exemplares pelo poder judiciário e até extermínio pela polícia militar se quem reclama ou simplesmente for “suspeito(a)” por ser negro(a) e/ou morador(a) de favela. A máxima “não haverá golpe!” é, ao meu ver, só uma bravata numa disputa política meramente pelo poder. PSDBistas querem retornar, PTistas não querer largar, PMDBistas não se importam com quem governa, pois influenciam da mesma forma… E as políticas estruturais são as mesmas.

Sou do Rio de Janeiro e aqui o ano começa com o governo estadual anunciando um corte de 18 bilhões no orçamento (Veja em http://goo.gl/Q9jxYQ). Sou professor numa instituição que vem sendo destruída pelo governo Pezão/Pesão, através de uma (con)gestão autoritária e acompanhada por capangas armados que despreza a história, o projeto pedagógico da instituição e o próprio significado da palavra “educação”. No Rio de Janeiro, em nome da Copa, das Olimpíadas e agora “por culpa” da queda do preço do petróleo, bons serviços públicos têm sido destruídos e passou a valer tudo (e, é bom que se diga, que “tudo” tem muitas violações de direitos com aval do poder que deveria ser judiciário). Vale ignorar direitos fundamentais, expulsar pessoas de suas residencias em áreas agora cobiçadas pelo capital, vale segregar racialmente e impedir jovens negros de chegar nas praias da zona sul, vale assassinar pessoas negras e pobres “suspeitas” (e se não forem suspeitas há sempre armas à disposição para serem plantadas para fundamentar o auto de resistência), vale gastar muito com gás de pimenta, gás lacrimogênio e roupa de robocop para policiais atuarem contra os movimentos sociais (na verdade, contra os direitos humanos e a carta constitucional), vale deixar UPAs e hospitais sem nenhum recurso, vale deixar o aedes aegypti se proliferar, vale deixar estudantes sem merenda escolar e cartão de transporte (aqui chamado de “Riocard”), vale atrasar e congelar salários e direitos de professores, médicos e outros servidores públicos, e deixá-los sem as mínimas condições psicológicas e materiais para desenvolverem suas funções… Vale todas as violações em nome dos interesses econômicos que querem construir uma cidade olímPICA.

O museu, dito do amanhã, 40 dias após a inauguração, já apresentou avarias (Veja em http://goo.gl/AyUYbG), assim como aconteceu com o estádio do engenhão, feitos “nas coxas”. O camarote do governo do Estado no Sambódromo foi comprado pela cervejaria que ganhou 687 milhões de isenções fiscais do Estado por concessão Pesão e da maioria dos deputados (como disse um dos pouquíssimos deputados estaduais que talvez tenham algum compromisso com a democracia, Pesão, Peso Grande, não Pezão, pois trata-se do chefe de um grupo corrupto bem pesado para a população do Estado do Rio de Janeiro). Impostos, tarifas, juros, preços de produtos do dia a dia e dívidas aumentaram. Salários perdem mais capacidade de compra a cada dia que passa. Muita gente que chegou na dita “classe C” já se vê de volta às “classes” D e E. Servidores públicos em vários estados e municípios vivem as dificuldades impostas por atrasos de salários, calote do 13º e congelamento, sem falar naqueles, como os do Rio de Janeiro, cujo governo trabalha para reduzir seus salários. Mas Bradesco e Itaú realizaram seus maiores lucros, cervejarias e empreiteiras se dão bem com isenção de impostos no estado que mais perdeu arrecadação, as máfias lideradas por Cunha e pela “famiglia” Picciani ficam cada vez mais ricas, elegem e nomeiam cada vez mais “paus mandados” para defender os interesses espúrios que representam, e Pedro Paulo, o espancador de mulheres, cria do Eduardo Paes, será o candidato a prefeito do grupo mafioso que governa quase tudo no Estado, com o apoio do PT e a provável participação da ex-torturada Dilma Roussef no palanque de quem, de acordo com a lei Maria da Penha, deveria estar vendo o sol nascer quadrado.

Tudo isso em um contexto em que o mesmo descaso estatal que permitiu que a lama da Samarco matasse pessoas e ecossistemas em Mariana, permitiu a proliferação de um mosquito que transmite um tal de zika vírus que pode causar microcefalia em bebês em gestação e paralisia em adultos (síndrome de Guillain-Barré), o mesmo mosquito que, segundo uma daquelas falas de Dilma que revelam uma certa confusão governamental, “a gente tem de matar, de preferência antes dele nascer”(hum? Veja em http://goo.gl/nXFRgH).

Apesar do alerta da Organização Mundial da Saúde (OMS) de que a epidemia de zika vírus é um caso de emergencia internacional, aqui no país da gestão do público para interesses privados não só a secretária trabalho, assistencia social e cidadania da prefeitura de Petrópolis, mas todos(as) os(as) políticos, dizem “vai catar coquinho” todos os dias para a população que demanda atendimento médico público (Veja em http://goo.gl/4sjYmb). Sim, todos e todas que exercem cargos de poder sobre a vida nos nossos parasitários governos, parlamentos e órgãos que deveriam ser de justiça, gente boa ou não, são co-responsáveis pelo que prevalece nos seus discursos e atos: descaso, discriminação, desprezo e exploração das pessoas que trabalham para pagar “doações” de campanha e alguns confortos que o atendimento a determinados interesses proporciona.

Tornados ontologicamente canalhas pela dinâmica partidária e por uma sistema político que corrompe a proposta de um Estado Democrático, os(as) políticos(as) de carreira que hoje se digladiam numa disputa insana pelo poder não demonstram a menor preocupação com os impactos que seus atos e suas omissões causam na sociedade. Agem contra a democracia e as instituições ditas “democráticas” os(as) protegem. Do meu ponto de vista, o atual cenário de crise política não é o de uma disputa entre direita, esquerda e suas variações, por princípios e propostas, mas de uma disputa pela condução de nossa institucionalidade conservadora, produtora de desigualdades e muito lucrativa para seus gestores, que os partidos, quando no poder, acabam aderindo. Não há, portanto, neste cenário, sinais de abertura a possíveis novos processos de democratização. Mudanças lideradas pelos políticos de carreira somente aquelas dentro da “ordem” e suportáveis pelo nosso capitalismo parasitário e pelo próprio conservadorismo que prevalece na sociedade, como deixou nítido a repressão estatal e a grande reprovação social dos movimentos de 2013.

Sabemos, porém, que muitas das instituições que o discurso do poder diz que precisam ser preservadas são instituições que, para o bem comum, devem ser destruídas. A ocupação das ruas continua sendo uma forma de, pelo menos, demonstrar indignação. O voto também. Por isso penso que, diante da falta de alternativas confiáveis entre os partidos e os políticos de carreira que se apresentam, o voto NULO nas eleições municipais de outubro seria uma boa forma que dizer que o que aí está não tem legitimidade política e mostrar que queremos outra política, se realmente quisermos.

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