O Encontro

Aconteceu em uma festa, no dia 19 de julho. Na verdade, ele e ela começaram a se observar cuidadosamente no dia anterior ao da festa, no ônibus que transportava pessoas do local de uma conferência para o hotel onde estavam hospedados alguns dos participantes do evento. No trajeto trocaram olhares que se degustavam olhares quaisquer. Minutos depois de chegarem ao hotel, as pessoas foram para seus quartos, mas minutos depois, no saguão do hotel, trocaram algumas palavras sobre futebol e se despediram.

No dia seguinte, já na festa, encontraram-se casualmente, pois nada haviam combinado. Talvez tivessem até esquecido da degustação de olhares e da conversa sobre futebol no dia anterior. Mas o encontro foi uma boa surpresa para ela e para ele. Trocaram outros olhares, outros olhares mesmo, olhares diferentes daqueles do dia anterior, olhares mais que degustantes, brilhantes, sorridentes, interessados. Mas apesar disso, ninguém tomou a iniciativa de “puxar o desenrolo”, mesmo doidos para se aproximarem. Ele estava cauteloso, pois já havia um malandro jogando um lero pra cima na dela. Porém ele logo percebeu que o malandro não estava sendo bem sucedido com seu lero, pois ela sempre que podia lançava um olhar sorridente para ele, o “Pretinho” que ela achou bonito desde o viu a primeira vez.

E ele, suavemente constrangido por aquele olhar, pensava: “Que Pretinhosidade!”.

Aí a banda de música começou tocar e cantar, as pessoas a ficarem animadas e, consequentemente, caíram na dança, especialmente no samba. E foi quando, ele e ela, Pretinho e Pretinhosidade, começaram também a sambar (no samba Pretinho manda bem!). E aí, dançando e cortejando, um a outra, uma ao outro, as intenções tornaram-se mais perceptíveis, não apenas para ela e ele, mas também para as pessoas que os observavam. Os dois, no entanto, não trocaram nenhuma palavra na primeira vez que dançaram, mas estavam cheios de boas intenções, uma para o outro, um para a outra. “Demorô”, pensava ela. “Já é”, pensava ele. “Saparada”, era o que pensavam os dois.

O malandro que estava jogando o lero para cima dela, malandro velho, logo percebeu que o seu “agá” seria apenas perda de tempo e de palavras. Percebeu, principalmente, que Pretinhosidade, além de não demonstrar interesse pelo seu lero, demonstrava disponibilidade para Pretinho. Reconhecendo então que não dava para ele, o malandro do lero se dirigiu até Pretinho, bateu em suas costas e disse “perdi meu amigo, a bola tá contigo”.

Pretinho e Pretinhosidade dançaram bastante, dançaram muitas vezes. Numa das vezes, quando ele voltava do bar, ela, ao vê-lo, se dirigiu lindamente na sua direção, e de braços abertos, querendo dançar, toda cheia da suavidade maliciosa que o brilho dos seus olhos denunciava. Esse gesto da Pretinhosidade sensibilizou Pretinho, produzindo nele, em relação a ela, um olhar mais interessado e vontades outras. Mas teve também cena de ciúme da parte dela, porque ele, vadio demais (ainda mais com umas manguaças na ideia), circulava e dançava com outras mulheres. Disso ele também gostou e pensou: “Acho que vai rolar”.

A festa chegou ao final, mas ali algo começava a acontecer. Na despedida fizeram um selfie, trocaram números de telefones e deram um beijinho maroto, um quase-selinho. Naquele dia “não rolou”, mas foi o dia de um encontro que deixou uma vontade, início de uma sentimentanimalidade que nem ele e nem ela imaginavam no que ia dar. É, já faz alguns anos que aquele encontro fez mudar muitas coisas nas vidas de Pretinhosidade e Pretinho.

Depois do carnaval, chegou a nossa hora!

Depois de mais um carnaval,
em que a período de festas se completa,
mesmo que haja quem não queira
chegamos às cinzas de quarta-feira,
que é, como diz o poeta, o dia que “desce o pano”,
e, portanto, o dia que começa o ano
em que o ataque ao bem viver comum
e a quem vive do seu próprio trabalho,
pelo governo estelionatário
e o capital parasitário,
demanda de nós providências.
Nas ruas e no planalto, e em muitos outros palácios,
não somos feito palhaços, que existem para alegrar,
sofremos violações de direitos
e todo tipo de violência, daquelas que dão dor de chorar.
Nessa situação, só fazendo multidão
podemos exigir respeito e decência,
e neste ano de eleição
podemos não votar nos atuais eleitos,
muito menos nos da igreja do prefeito,
nos partidários da escola sem partido
e no extraordinário acéfalo candidato-mito.
É urgente frustrar a reforma da previdência,
limpar o congresso nacional,
tirar os vampiros da presidência,
desinfetar o supremo tribunal,
para acabar com corruptocracia.
Os imbecilizados de farda,
o esquerdismo elitista que se pensa vanguarda,
o jornalismo racista, os canalhas de toga-preta,
os empresários-bandidos que financiam essa treta
e seus políticos pau-mandados,
diante da multidão ficarão desesperados
e dilmais temerosos com a potência da antropofagia
que vai jogar o lixo pra fora,
barrar o peemedebismo,
eliminar o bolsonismo,
superar o lulismo
e fazer democracia.
Chegou a nossa hora!

Mais uma vez o Jornal O GLOBO se expressa como porta-voz de interesses racistas da elite brasileira

Em 17/10/1944, o jornal O GLOBO colocou em seu editorial o seguinte: “Uma corrente defensora da cultura nacional e do desenvolvimento da cena brasileira está propagando e sagrando a ideia da formação de um teatro de negros, na ilusão de que nos advenham daí maiores vantagens para a arte e desenvolvimento do espírito nacional. É evidente que semelhante lembrança não deve merecer o aplauso das figuras de responsabilidade no encaminhamento dessas questões, visto não haver nada entre nós que justifique essas distinções entre cenas de brancos e cenas de negros”. Tratava-se de uma crítica ao Teatro Experimental do Negro – TEN, companhia de teatro fundada por Abdias do Nascimento, que “se propunha a resgatar, no Brasil, os valores da pessoa humana e da cultura negro-africana, degradados e negados por uma sociedade dominante que, desde os tempos da colônia, portava a bagagem mental de sua formação metropolitana europeia, imbuída de conceitos pseudo-científicos sobre a inferioridade da raça negra. Propunha-se o TEN a trabalhar pela valorização social do negro no Brasil, através da educação, da cultura e da arte” (1). Ou seja, a iniciativa de Abdias e seus colaboradores, que visava dar visibilidade, no campo das artes dramáticas, à cultura afro-brasileira e oportunizar um espaço a atores e atrizes negros e negras no teatro brasileiro, incomodou o poder e seu principal veículo de opinião, o Jornal O GLOBO, expressou sua crítica (notadamente racista) à presença de negros num setor elitizado e racializado.

Em 24/07/2016, quase 72 anos depois, o mesmo jornal, também em editorial, agora sobre o que no título do texto chamou de “injusto ensino superior gratuito”, publicou o seguinte:

“Para combater uma crise nunca vista, necessita-se de ideias nunca aplicadas. Neste sentido, por que não aproveitar para acabar com o ensino superior gratuito, também um mecanismo de injustiça social?(…) O momento é oportuno para se debater a sério o ensino superior público pago. Até porque é entre os mecanismos do Estado concentradores de renda que está a universidade pública gratuita. Pois ela favorece apenas os ricos, de melhor formação educacional, donos das primeiras colocações nos vestibulares. Já o pobre, com formação educacional mais frágil, precisa pagar a faculdade privada, onde o ensino, salvo exceções, é de mais baixa qualidade. Assim, completa-se uma gritante injustiça social, nunca denunciada por sindicatos de servidores e centros acadêmicos. (…) Quanto aos estudantes de famílias de renda baixa, receberiam bolsas. Além de corrigir uma distorção social, a medida ajudaria a equilibrar os orçamentos deficitários das universidades, e contribuiria para o reequilíbrio das contas públicas”(2). (Grifos meus)

Vale ressaltar, que entre 2001 e 2012, período de um intenso debate público sobre a proposta de cotas para negros (que acabou se concretizando em várias instituições), o mesmo jornal em editoriais e em vários artigos de opinião publicados, expressou veementemente a sua discordância, inclusive com argumentos de que a política de cotas instituiria uma injustiça, além de comprometer a qualidade do ensino e das atividades das instituições. A resistência conservadora à proposta de cotas para negros organizada pelo diretor de jornalismo à época, em parceria com alguns articulistas do jornal, em seus fracos argumentos, não conseguiu produzir uma opinião pública potente contra as cotas, por não conseguir, apesar das tentativas, invisibilizar que o racismo está na origem das desigualdades raciais presentes na sociedade brasileira.

Na Finlândia, onde a educação é considerada a de melhor qualidade no mundo, as escolas e universidades são 100% estatais e gratuitas, públicas de fato (3). No Chile, a gratuidade do ensino superior passou a vigorar este ano, num processo que até 2020 deve transformar todas as universidades estatais em universidades públicas (4). Ambos são países que, vez e outra, a nossa mídia, inclusive as Organizações Globo, apresenta como exemplos de seriedade em políticas educacional e econômica. Porém, parece que para os mesmos que divulgam e celebram tais “exemplos”, discordam de que o Brasil os considerem como exemplos.

A maior empresa de comunicação do país, evidentemente, não expressa apenas pontos de vista de seus donos, mas interesses de determinados setores da sociedade. Desconheço editoriais em que, antes das políticas que promoveram uma pequena abertura do ensino superior público para pobres e negros, o jornal apresenta críticas ao “injusto ensino superior gratuito” brasileiro. Para a família Marinho e a elite da qual as Organizações Globo são porta-vozes, não é injusto um teatro sem expressões, artistas e produções negras, ou uma universidade pública sem diversidade étnico-racial em seus currículos e quadros docentes e discentes (que para eles, agora que está deixando de ser exclusivamente para as pessoas mais abastadas, deve ser paga). Mas são injustas a universidade pública de fato, as políticas de cotas e renda mínima, as greves de professores (5), a taxação das grandes fortunas (6).

De fato, quando processos sociais de democratização fazem a nossa democracia parecer algo além da hipócrita declaração formal de que “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza” (7), incômodos conservadores ganham espaços no jornal. Da mesma forma, quando crises abatem o que incomoda, proposições oportunistas nada democráticas também ganham espaço, como me parece ser o caso do artigo do editorial de 24/07/2016.

As Organizações Globo são, a meu ver, ao lado de Folha de São Paulo, Revista Veja e outros veículos, uma das expressões do racismo parasitário de uma elite que fez e faz riqueza com o trabalho escravo, a superexploração do trabalho mal remunerado, o autoritarismo, a gestão dos fundos públicos em favor dos seus interesses, tudo isso sob proteção e através de um Estado, formalmente dito “democrático de direito”, que para essa elite deve continuar a ser mínimo e implacável para os pobres, principalmente para negros(as) pobres.

Uma ciclovia que pode ser chamada de “ponte para o futuro”

Em outubro de 2008, quando perguntado sobre os efeitos no Brasil da crise da economia americana naquele momento, provocada por uma retração do crédito oriundas dos empréstimos Subprime, Lula disse que, apesar de nos EUA ser “um tsunami”, chegaria aqui como “uma marolinha que não dá nem para esquiar” (ou seria surfar?). Já Dilma, em junho de 2015 (quando já sentíamos que crise não era marolinha), reformou o que Lula afirmou em 2008, disse que naquele momento (2008) foi uma marolinha, mas a marola virou uma onda porque “o mar não serenou”.

Podemos dizer que, de fato, o mar não serenou, ficou mais bravo, fez uma forte ressaca chegar aqui e vem produzindo desastres. O desabamento da ciclovia “Tim Maia”, na Zona Sul do Rio de Janeiro, no último dia 21 de abril, se transformou num símbolo do que o mar que não serenou faz com o Brasil, mas também numa caricatura da falta de transparência do governo federal sobre a real situação da economia (que foi importante para as vitórias de Dilma nas eleições de 2010 e, principalmente, de 2014), e do que vem causando no Brasil e no Rio de Janeiro a aliança entre PT e PMDB, agora terminada pelo PMDB que, além de não querer ser sugado pelas fortes ondas da crise econômica, passou a ver na crise política e na impopularidade de Dilma a possibilidade de ocupar a Presidência da República (pela terceira vez e sem vencer eleições diretas).

A ciclovia contratada pela gestão municipal corrupta de PMDB e PT, e construída por uma empreiteira igualmente corrupta, é a melhor representação do que é a “ponte para o futuro” sobre a qual o Brasil terá que atravessar a crise econômica em que se encontra. A cidade olímpica dos golpes nos direitos e das mortes provocadas por Cabral, Pezão, Paes, Cunha, Piccianis, etc, com apoio e cumplicidade do PT que agora se diz vítima de um golpe e de uma traição do ex-aliado, me parece uma triste amostragem do que a corrupção da democracia que as relações espúrias entre Estado, partidos, políticos e governos com o poder econômico têm feito no Brasil.

O atual processo de impeachment é uma briga de ex-sócios que se desentenderam, não uma disputa de projetos. E o desabamento da ciclovia que devia se chamar “ponte para o futuro” virou caricatura do que o, agora rompido, casamento político fisiológico produziu, da falta de condições de governabilidade com Dilma, da ilegitimidade política de Temer na presidência e da lama podre composta por nossos partidos que a barragem do sistema político corrupto não consegue mais conter.

Que façamos agora, de fato, uma luta pela democracia

O processo de “impeachment” de Dilma não é só uma ilegalidade (digo isso porque os argumentos jurídicos que questionam o uso de decretos e “pedaladas” – termo usado para dar um caráter de crime para uma prática recorrente e nunca antes questionada). O processo de “impeachment” é um movimento político infame operado por um grupo de empresários, partidos e políticos que se aproveitam da crise econômica, da impopularidade de Dilma e do desastre que se tornou o seu governo, e que não suportam mais ficarem fora do palácio do planalto, não querem Lula novamente na presidência em 2019 e são tão ou mais estelionatários, corruptos e corruptores da democracia como passou a ser o governo petista com as alianças que fez. Alias, o processo de “impeachment” partiu de alguns deles ex-parceiros de Lula e Dilma nos ataques ao erário e aos direitos, feitos pelos esquemas de roubo, pela lei antiterrorismo, pela proposta de ajuste fiscal, pelas exigências de desmonte dos serviços públicos aos Estados para a negociação das suas dívidas (em trâmite no congresso) e outras medidas e negociatas. Esse movimento contra Dilma tem como um dos maiores culpados o próprio governo e o PT, que aliou-se ao PMDB, golpeou os movimentos pela democracia de 2013 e 2014, mentiu descaradamente na campanha eleitoral e foi de direita na maioria dos seus atos, utilizou-se e sofisticou as formas de lavagem de dinheiro público para campanhas eleitorais.

Não sou partidário da destituição de Dilma (que vejo como um “golpe no golpe” que fortalecerá e tornará mais violento o atentado aos direitos já em curso). E nem concordo que a defesa de Dilma, Lula e do PT sejam chamadas de “defesa da democracia”. Do meu ponto de vista a defesa da democracia é outra disputa, é luta social por dignidade, contra um sistema político, um congresso nacional e um governo (seja qual for a conclusão do processo) que privilegiam os interesses dos que vivem da exploração do trabalho e do dinheiro que devia ser público. Do meu ponto de vista, nenhum dos lados que disputam o poder no congresso nacional são, de fato, defensores da democracia. Podemos ver isso apenas observando que nenhum dos lados respeitam a vontade da maioria dos eleitores, um porque mentiu, outro porque quer destituir uma pessoa eleita que, apesar de estelionato eleitoral, até agora não tem provado crime que justifique juridicamente a sua cassação.

Em defesa da democracia, independente do que o nosso apodrecido congresso nacional venha a decidir no final do processo de “impeachment” da presidenta da república, é preciso que haja uma mobilização dos movimentos sociais, das pessoas que vivem do seu trabalho, dos(as) servidores(as) públicos(as). Em defesa da democracia, um movimento popular precisa exigir a continuidade das medidas que promovem concretamente os direitos (como renda mínima, remuneração digna, transporte público com tarifa zero, serviços públicos de qualidade em educação e saúde, democratização da mídia e de serviços de comunicação e acesso à informações, fim das polícias militares, ações afirmativas de promoção de igualdade, preços justos que não beneficiem apenas as empresas, sistema tributário justo). Em defesa de democracia, é preciso ocupar as ruas e os palácios, urgentemente, por um novo sistema político.

A saída democrática das crises econômica, institucional e da representação demanda uma constituinte democrática que só pode iniciar-se nas ruas. E, a meu ver, neste momento, após o termino desse ilegal e infame processo de “impeachment” que o próprio PT ajudou a construir, a principal exigência popular em defesa da democracia deve ser a renúncia do atual governo (da presidenta eleita com discurso mentiroso e seu vice golpista) e dos(as) atuais deputados(as) e senadores(as) em favor de novas eleições em outubro, e também a exigência de uma assembleia constituinte exclusiva, sem nenhum(a) dos(das) atuais não confiáveis parlamentares e partidos, para revisar e fazer as devidas mudanças no atual sistema político-partidário.

Após o desfecho do processo de “impeachment” no senado, em que a fome está vencendo a vontade de comer, e parafraseando o que disse o pesquisador Lucas Luz (UNISINOS) numa palestra que proferiu, a luz que aparecerá no fim do túnel não é a luz da esperança, mas a luz de um trem empresarial-partidário em direção às poucas conquistas democráticas que tivemos no pós-ditadura civil-militar e tornará mais difícil a vida de trabalhadores(as), aposentados(as), professores(as), estudantes, juventudes, religiosos considerados “não Cristãos”, quilombolas, povos indígenas, LGBT, moradores de favelas e do trabalho vivo em geral. Só com resistência e ocupação, como fizeram os estudantes de São Paulo em 2015 e como fazem atualmente os estudantes do Rio de Janeiro ao ocuparem as escolas públicas, é possível fazer, de fato, a defesa da democracia. Os partidos e o congresso nacional corruptos que temos, ao contrário, ficarão ao lado da austeridade fiscal, da privatização, do desmonte dos serviços públicos e, pois, da corrupção da democracia. Para promover uma agenda de democratização para começarmos a sair da crise, Dilma não tem condições políticas e Temer não terá legitimidade. Governo, Câmara e Senado liderados pelo PMDB é o pior dos cenários. O Rio de Janeiro é um exemplo de um cenário desastroso liderado pelo PMDB com apoio do PT, irmãos em política até aqui.

Uma ampla luta em defesa da democracia, se houver, será árdua e dolorosa, como já tem sido para moradores de favelas no Rio de Janeiro, para os povos indígenas, para a juventude negra, para as mães que lutam pela dignidade dos seus filhos assassinados pelo Estado, para os estudantes que lutam pela escola pública, para os movimentos que não se deixaram cooptar por cargos e editais, e para outras singularidades indesejadas pelo “mercado” e pelo Estado policial que temos. No meu ponto de vista, como já afirmei em texto anterior, nessa crise produzida pela disputa entre a fome e a vontade de comer, é preciso uma mobilização popular que assuma a luta por um novo sistema político minimamente decente e a retome as pautas de radicalização democrática de junho de 2013 e 2014. Só mesmo um devir Ubuntu das lutas pode fazer do Estado Brasileiro aquilo que ele nunca foi, um Estado Democrático de Direito. Que façamos uma luta, de fato, pela democracia.

Entre a fome e a vontade de comer, a saída é lutar por democracia de fato

A Operação Lava Jato e outras operações eventualmente associadas, a flagrante atuação seletiva da mídia corporativa para determinados interesses, as manifestações populares que pedem a saída de Dilma da Presidência da República, as articulações “golpistas” da oposição política, empresarial e midiática, o processo de impedimento da presidenta no Congresso Nacional, em conjunto recebem a denominação de golpe de estado pelo governismo e seus apoiadores, e também por outras pessoas não necessariamente apoiadoras dos governos Lula e Dilma. Um elemento fundamental na argumentação dos que dizem estar havendo um golpe institucional no Brasil é que o Estado Democrático de Direito que conquistamos está sofrendo um atentado pelos grupos do poder político e econômico.

Desde que a disputa pelo poder que pode destituir Dilma da Presidência da República se acirrou e esse discurso de defesa do nosso Estado Democrático de Direito passou a fazer parte do debate público sobre a crise, fico me perguntando: Que Estado Democrático de Direito é o nosso?

Penso, a partir do que leio e vejo, que o Estado Brasileiro é tão notoriamente de exceção que somente o jornal “O Sensacionalista” chamaria isso seriamente de Estado Democrático de Direito. E nem é preciso exemplificar. Todos os dias tomamos conhecimento de algum fato que mostra o que afirmamos, de alguma morte ou violação de direito oriundas das arbitrariedades, da truculência, do desprezo e do racismo com que instituições de polícia, do ministério público, de defensoria pública e do poder judiciário, e também de governo e legislação, agem em relação às pessoas pobres e negras, e às pessoas que vivem exclusivamente da sua força de trabalho, mostram que é letra morta a declaração constitucional de que o Estado Brasileiro é “democrático de direito”. Dar exemplos de tais fatos em alguns parágrafos é impossível.

Entre 2003 e 2006 (período do primeiro governo de Lula), governo federal e congresso, em diálogo com movimentos sociais, deram alguns passos positivos, políticas de constituição material de direitos em várias áreas, através do PROUNI, do REUNI, da ampliação do ENEM, das políticas de cotas, dos programas de assistência e inclusão social, e de valorização da diversidade, com a consolidação de um programa de renda mínima (bolsa família) que poderia ser o embrião do direito comum uma renda de cidadania, as políticas de cotas, com a valorização do salário mínimo e alguma distribuição de renda.

Mas, nos últimos anos, especialmente a partir de 2013, quando grandes manifestações passaram a exigir a continuidade do processo de democratização esperado com a primeira eleição de Lula, a reação policial do Estado em relação ao movimento, ao meu ver, mostrou que o próprio governo do PT, com a direita e com instituições estatais que foram criadas para garantir que o poder permaneça na casa grande das oligarquias econômicas, de onde nunca foi tirado, determinou um teto para as conquistas que ajudou a constituir, com a forma como chamou para o “diálogo”, como desqualificou e como criminalizou os movimentos de 2013 e 2014.

Para quem vive em favelas, as violações de direitos e os assassinatos feitos pelo Estado fazem parte da rotina, desde sempre, pelo menos em todo nosso período republicano. E isso sequer foi objeto de alguma ação séria dos governos “populares” eleitos em 2002, 2006, 2010 e 2014. Por causa do que o PT fez de bom, o justiceiro Sérgio Moro faz, a partir do que o PT fez de ruim e em doses bem menores, o que a sua instituição sempre fez com os pobres.

Assim, a defesa da democracia não é a defesa de um partido e de um governo que experimenta agora as ilegalidades que utilizaram contra os movimentos de 2013 e 2014 (escutas ilegais, mídia corporativa a serviço de empresas parasitárias, provas forjadas e decisões infames de canalhas de farda, toga e terno) e cinicamente chama os movimentos a lutar por sua permanência. O governo experimenta um golpe do Estado de Direito que nunca existiu e que não foi parte dos seus planos governamentais. Penso que é legítimo a defesa do governo por quem queira fazê-lo, apesar de ser liderado por alguém que mentiu descaradamente na eleição de 2014, que é cúmplice da corrupção da democracia que vivemos e que tem grande responsabilidade na crise econômica que vem esfacelando boa parte dos próprios avanços sociais que produziu. Mas discordo que tais manifestações recebam o rótulo de “defesa da democracia”.

Embora o governo atual tenha dado golpes no “soberano” (mentiu descaradamente na eleição de 2014) e nos direitos (apoio aos fascismos e aos racismos de Sergio Cabral, Pezão e Eduardo Paes no Rio de Janeiro, Lei antiterrorismo para criminalizar movimentos sociais, violências contra comunidades indígenas, engavetamento do projeto de democratização da mídia, roubo de dinheiro público), o processo de impedimento de Dilma me parece, de fato, uma tentativa de golpe institucional para destituir a presidenta e de golpe político contra Lula, candidato com chance à presidência da república em 2018. Parece um golpe no golpe. A “ponte para o futuro” de um eventual governo de Michel Temer, possivelmente um cenário pior que o atual, será a continuidade radicalizada do ataque aos direitos.

Os pólos em disputa são os que colocaram o país da atual situação de retrocesso social. Ao meu ver, os movimentos que se dizem em defesa da democracia, entre outras coisas, devem produzir uma narrativa das que se apresentam com ou sem impedimento da presidenta, devem buscar uma saída pela defesa da democracia de fato, que certamente não é o que representam o PT e seus aliados e adversários. Há uma fúria oposicionista contra o PT que vem violando regras, tudo provavelmente porque essa oposição não aguenta mais ficar fora do Palácio do Planalto, mesmo que o governo petista faça as políticas da casa grande. Mas o PT errou, aliou-se ao porcos, tornou-se porco, praticou os mesmos crimes, passou a corromper o projeto democrático expresso na carta constitucional, traiu a esperança e a confiança de muita gente, enfraqueceu a esquerda, produziu sua própria destruição.

No momento, vivemos o popular “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”, um cenário propício para que os movimentos em defesa da democracia radicalizem na luta pela constituição material dos direitos e pela revisão do sistema político e do modus operandi de algumas instituições, revisão que atuais políticos e partidos não podem fazer, pois que já demonstraram que na prática representam a corrupção da democracia e não são confiáveis, comprometidos que são com os interesses infames dos que os financiam.

Ao meu ver, se fossem, de fato, instituições republicanas, partidos e congresso nacional devolveriam ao soberano (o povo) a possibilidade de refazer as escolhas para a Presidência da República e para o Congresso Nacional feitas em 2014 sob o poder do dinheiro sujo e muitas mentiras, recompondo a representação para que esta discuta e execute uma agenda para tirar o país da encruzilhada que sustenta crise econômica e apresentar em 2018 instituições em condições de pensar o futuro. Se fossem minimamente republicanas, as atuais as nossas instituições políticas possibilitariam uma assembleia popular constituinte, sem a participação dos(as) atuais parlamentares, para que em paralelo seja feita uma revisão do sistema político, para o pós 2018. Mas as atuais composições dos partidos e do congresso não são republicanas e só fazem prevalecer os interesses infames que produziram a crise que vivemos.

O Brasil se vê numa crise produzida pela fome e pela vontade de comer. Mas o dia seguinte ao desfecho do processo de impedimento, que se aproxima, pode ser o dia do início de um movimento popular que assuma a luta por um novo sistema político minimamente decente, e retome bandeiras de radicalização democrática dos movimentos de 2013 e 2014, como transporte público, saúde e educação públicas de qualidade, escolas como pontos de culturas, acesso público às estruturas de informação e comunicação, democratização da mídia, salário de cidadania, orçamento participativo, intervenções urbanas que priorizem melhoria das condições de vida e não lucros para empresários, desmilitarização das polícias, continuidade do processo de promoção de igualdade, sexual e de gênero, respeito à vida e aos demais direitos. Falta muito ainda para termos um Estado Democrático de Direito, que só existirá a partir de um devir Ubuntu das lutas do trabalho vivo. “Organizar a nossa luta por nós mesmos é um imperativo da nossa sobrevivência” (Abdias do Nascimento).

Greves e resistências na atualidade da crise da representação

Sou professor, servidor público do Estado do Rio de Janeiro. Desde o início do ano acontece um embate com o governo do Estado, liderado por Luiz Fernando Pezão (PMDB), face aos atrasos nos pagamentos de salários que começaram dezembro/2015, ao parcelamento do 13º e ao pacote de medidas que o governador pretende aprovar na Assembléia Legislativa, que pretende uma Lei de Responsabilidade Fiscal que prevê, entre outras coisas, aumento da alíquota de previdência de 11% para 14%, congelamento de salários e outras “maldades”. Associa-se a isso o abandono pelo governo e as péssimas condições de trabalho em alguns setores importantes do serviço público, como educação e saúde. As manifestações e ocupações de escolas por estudantes denunciam o sucateamento.

Os(As) servidores(as) do Estado do Rio de Janeiro iniciaram um movimento de resistência, o MUSPE (Movimento Unificado dos Servidores Públicos Estaduais), que vem fazendo manifestações e propõe greve geral a partir de 06 de abril, caso o governo não recue em seu “pacote de maldades”. Professores(as) e demais trabalhadores(as) de educação da SEEDUC, FAETEC, UERJ, UENF, já estão em greve desde 02 de março. E outras categorias prometem greve a partir de 06 de abril.

Diante das covardias, aos ataques aos direitos e das mentiras que o governo Pezão vem promovendo, o movimento está forte e cada vez mais mobiliza servidores(as) e conquista apoios, como o importante apoio dos estudantes da educação básica, da educação profissional e da educação superior.

É um movimento diferente de greves anteriores. Deve ser visto como algo mais do que uma campanha salarial, algo além da justa preocupação com salários e condições de trabalho. Os(As) servidores(as) do Estado do Rio de Janeiro começaram a experimentar um pouco, só um pouco, do que as instituições que governam, legislam, arbitram, reprimem e ganham com o extermínio de vidas e com a exploração do trabalho, fizeram e fazem passar pessoas que vivem na Vila Autódromo, Maré, Alemão, Baixada Fluminense e outras regiões onde atuaram/atuam as forças armadas e as milícias do capital chamadas de UPPs. Estamos experimentando os efeitos de uma reestruturação das cidades e dos direitos bastante desfavorável à circulação, ao direito de ir e vir, à valorização da diversidade sócio-cultural, ao aprendizado para o bem viver, à produção de conhecimento e arte, ao acesso comum ao que é produção comum. E não duvido que a copa e as olimpíadas no Rio de Janeiro tenham sido compradas para viabilizar as operações em favor da especulação imobiliária, das empreiteiras, dos bancos, das empresas de mídia, telecomunicações, energia e transporte, do capital internacional, que passamos a assistir de 2007 até o momento. Estamos experimentando uma política que transforma tudo em mercado e mercadoria e que não tolera qualquer resistência ou pensamento divergente.

Nosso movimento insere-se num movimento social mais amplo, numa resistência popular necessária, iniciada pelos movimentos de maio e junho de 2013, pela lutas dos professores do município também em 2013, pelas lutas dos garis, pelos rolezinhos e outras lutas, brutalmente reprimidas em 2014 e 2015. O que está em risco é a vida, os direitos e a dignidade de quem vive do trabalho e realmente produz.

Há quem diga que Pezão é incompetente e faz uma péssima gestão. Eu discordo. O vemos e vivemos, ao meu ver, não é fruto da incompetência de um péssimo gestor, não é problema de gestão. É uma política de gestão, que articula ataques aos direitos, reorganização do Estado e do funcionalismo público e, se necessário, repressão e extermínio, para atender aos interesses do capital parasitário (são emblemáticos o “desaparecimento” de Amarildo, a condenação de Rafael Braga e a execução, pelo Estado, de 5 jovens negros “suspeitos”, com 111 tiros, para resgatar um caminhão da AMBEV). Um detalhe no pacote de maldades do governo Pezão me chamou a atenção: a proposta de colocar aposentados e pensionistas como “gastos com pessoal”, o que fará o poder executivo do Estado do Rio de Janeiro ultrapassar o limite de gastos com pessoal estabelecido pela lei de responsabilidade fiscal (49%) e abre a possibilidade de demissões, mesmo de concursados. E não se trata apenas de redução de despesas em função de uma conjuntura econômica, mas de um ajuste estrutural e também de uma política de enfraquecimento das lutas do trabalho, que ainda têm relativa força no funcionalismo público. Cabral, Pezão, Paes, Pirilo, Richa, Alkimim, Serra, Aécio, Lula, Dilma, a máfia dos Picciani, os achacadores Eduardo Cunha e Renan Calheiros e outros(as) corruptores(as) da nossa fraca democracia em construção (agora sendo interrompida), pagos(as) por grandes empresas, têm sido ótimos(as) gestores(as) para os interesses do capital parasitário.

O Rio de Janeiro parece ser o laboratório do que os donos do poder pretendem para o Brasil. O pacote de maldades do governo Pezão, por exemplo, é exatamente o que o governo Dilma apresentou ao Congresso Nacional para a ajuste fiscal e o alivio das dividas dos Estados com a União (vejam em http://fazenda.gov.br/noticias/2016/marco/governo-apresenta-medidas-de-reforma-fiscal). Pezão se antecipou? Dilma copiou? Não importa o que vem primeiro, pois tudo isso é fruto da aliança corrupta entre PT e PMDB. E talvez seja o Rio de Janeiro o laboratório do golpe contra a democracia que estamos assistindo. No Rio de Janeiro foi gestada a Lei anti-terrorismo proposta pelo governo federal e experimentadas violações de sigilo que a própria presidenta da república e seu partido agora experimentam.

Por isso, me coloco entre aquelas pessoas que pensam que a defesa da democracia não é a defesa de Lula, de Dilma, do PT ou da ordem constitucional, que juntos com a maioria dos políticos e dos partidos, infelizmente, passaram a integrar um modo de fazer política, histórico no Brasil, que é, este sim, a verdadeira corrupção da democracia. Além disso, apoiaram e participaram dos fascismos de Cabral, Pezão e Paes contra pobres e negros, inclusive com apoio a candidatura do espancador de mulheres Pedro Paulo para a prefeitura do Rio de Janeiro. Muito menos é a defesa de políticos, partidos, mídias corporativas, empresas, judiciário e ministério público igualmente corruptores da democracia, que trabalham para devolver o poder aos que o exerciam antes do PT, mesmo não sendo o PT uma ameça aos interesses das oligarquias.

A polarização entre PT-PMDB-aliados e PMDB-PSDB-DEM-aliados é só disputa por poder e, provavelmente, pela condução do mesmo projeto, que tem o patrimonialismo, o clientelismo, o autoritarismo e o racismo como pilares do Estado de Negócios nada Democráticos que é o Brasil, a mais de 500 anos. Sem que fosse acompanhado de reformas das estruturais necessárias, o processo de distribuição de renda promovido pelo PT se mostra superficial, se mostra esgotado e, pior que isso, entrou num curso de retrocesso e diminuição do poder de aquisição de bens e serviços, alguns essenciais para a saúde produtiva da economia.

Embora, ao meu ver, a condução coercitiva de Lula para um depoimento foi, de fato, uma ação não apenas questionável legalmente, mas uma ação política do ex-juiz e justiceiro Sérgio Moro e seus comparsas do Ministério Público, que se mostram alinhados aos que querem o politicídio de Lula, e talvez beneficiários de generosos pixulecos. Partidária e ilegal também foi a divulgação, pelo mesmo justiceiro e pela mídia corporativa, do conteúdo de gravações de conversa entre Dilma e Lula, bem como outras conversas de pessoas que sequer são investigadas.

Na suja disputa pelo poder que assistimos e que nos surpreende a cada dia, do meu ponto de vista, é evidente que há perseguição à Lula e ao PT, é evidente o monumental esquema de corrupção petista e bem provável a participação de Lula em tal esquema. Legais ou ilegais, algumas relações e atividades de Lula são, notoriamente, negócios que corroboram para o golpe na democracia que assistimos mais nitidamente desde a posse do governo federal, que passou a fazer o que disse que não faria na eleição presidencial.

Assim, ao meu ver, a defesa da democracia não é a defesa de um dos lados dessa falsa polarização, mas deve ser o êxodo dela, para a construção de alternativa e instituições verdadeiramente democráticas. A defesa da democracia é, no mínimo, a exigência de recomposição das nossas instituições com pessoas que assumam o compromisso com democratização das mesmas.

Os atuais “poderes” do Estado e seu operadores, na prática, não se mostram dignos de credibilidade. Um Estado Democrático de Direito deve ter instituições que garantam a dignidade, não instituições que a violem, como frequentemente fazem nossas instituições policiais, jurídicas, legislativas, governamentais e partidárias, que não são, ao meu ver, instituições a serem preservadas, mas a serem rediscutidas, transformadas e algumas até destruídas, se quisermos de fato defender a democracia. A democracia representativa no Brasil, que é a verdadeira corrupção da democracia, chegou num ponto crítico da sua própria crise.

Assim, penso as lutas dos(as) servidores(as) públicos(as) contra os ataques aos direitos, devem estar juntas as reais lutas constituintes de democracia, que são aquelas, que fora da falsa polarização corrupta, querem respeito aos direitos humanos, moradia, transporte, educação, saneamento e saúde de qualidade, remuneração digna, igualdade racial e de gênero, e um sistema político decente. Nós somos a nossa única esperança.

Chegamos ao início de 2016, ano de zika, olimpíadas e eleições

Chegamos no início de 2016. Passou janeiro, o carnaval e hoje, quarta-feira de cinzas, “desce o pano”. Amanhã retornamos à rotina. Segunda-feira, se houverem condições materiais, começam de fato as aulas nas escolas. E começamos o ano com uma grave questão de saúde pública para enfrentar, o zika vírus, além do que já estava na pauta, como impeachment, lava jato, zelotes, crises, olimpíadas, eleições, etc.

Tudo indica um ano difícil, com mais produção de inflação, desemprego e escassez de recursos, que justifique juros altos, políticas de austeridade, desinvestimentos em saúde, assistencia social, educação, pesquisa, infraestrutura e em outros setores, fruto das gestões corruptas de instituições públicas (que sequer se consolidaram) deste período destrutivo de neoliberalismo tucano e neodesenvolvimento petista, sempre apoiados/enquadrados pelo que há de mais fétido na política brasileira pós-constituição de 1988, o PMDB. Com ou sem processo de impeachment da presidenta, o golpe nos direitos já houve e vem se desenvolvendo desde de antes da gestão da atual presidenta, com privatizações, ataques aos direitos trabalhistas, entrega de serviços públicos a instituições de corrupção denominadas organizações sociais, aumento da exploração do trabalho via aumento de tarifas e impostos e, se reclamarmos muito, gás de pimenta, balas de borracha, prisões com provas forjadas, punições exemplares pelo poder judiciário e até extermínio pela polícia militar se quem reclama ou simplesmente for “suspeito(a)” por ser negro(a) e/ou morador(a) de favela. A máxima “não haverá golpe!” é, ao meu ver, só uma bravata numa disputa política meramente pelo poder. PSDBistas querem retornar, PTistas não querer largar, PMDBistas não se importam com quem governa, pois influenciam da mesma forma… E as políticas estruturais são as mesmas.

Sou do Rio de Janeiro e aqui o ano começa com o governo estadual anunciando um corte de 18 bilhões no orçamento (Veja em http://goo.gl/Q9jxYQ). Sou professor numa instituição que vem sendo destruída pelo governo Pezão/Pesão, através de uma (con)gestão autoritária e acompanhada por capangas armados que despreza a história, o projeto pedagógico da instituição e o próprio significado da palavra “educação”. No Rio de Janeiro, em nome da Copa, das Olimpíadas e agora “por culpa” da queda do preço do petróleo, bons serviços públicos têm sido destruídos e passou a valer tudo (e, é bom que se diga, que “tudo” tem muitas violações de direitos com aval do poder que deveria ser judiciário). Vale ignorar direitos fundamentais, expulsar pessoas de suas residencias em áreas agora cobiçadas pelo capital, vale segregar racialmente e impedir jovens negros de chegar nas praias da zona sul, vale assassinar pessoas negras e pobres “suspeitas” (e se não forem suspeitas há sempre armas à disposição para serem plantadas para fundamentar o auto de resistência), vale gastar muito com gás de pimenta, gás lacrimogênio e roupa de robocop para policiais atuarem contra os movimentos sociais (na verdade, contra os direitos humanos e a carta constitucional), vale deixar UPAs e hospitais sem nenhum recurso, vale deixar o aedes aegypti se proliferar, vale deixar estudantes sem merenda escolar e cartão de transporte (aqui chamado de “Riocard”), vale atrasar e congelar salários e direitos de professores, médicos e outros servidores públicos, e deixá-los sem as mínimas condições psicológicas e materiais para desenvolverem suas funções… Vale todas as violações em nome dos interesses econômicos que querem construir uma cidade olímPICA.

O museu, dito do amanhã, 40 dias após a inauguração, já apresentou avarias (Veja em http://goo.gl/AyUYbG), assim como aconteceu com o estádio do engenhão, feitos “nas coxas”. O camarote do governo do Estado no Sambódromo foi comprado pela cervejaria que ganhou 687 milhões de isenções fiscais do Estado por concessão Pesão e da maioria dos deputados (como disse um dos pouquíssimos deputados estaduais que talvez tenham algum compromisso com a democracia, Pesão, Peso Grande, não Pezão, pois trata-se do chefe de um grupo corrupto bem pesado para a população do Estado do Rio de Janeiro). Impostos, tarifas, juros, preços de produtos do dia a dia e dívidas aumentaram. Salários perdem mais capacidade de compra a cada dia que passa. Muita gente que chegou na dita “classe C” já se vê de volta às “classes” D e E. Servidores públicos em vários estados e municípios vivem as dificuldades impostas por atrasos de salários, calote do 13º e congelamento, sem falar naqueles, como os do Rio de Janeiro, cujo governo trabalha para reduzir seus salários. Mas Bradesco e Itaú realizaram seus maiores lucros, cervejarias e empreiteiras se dão bem com isenção de impostos no estado que mais perdeu arrecadação, as máfias lideradas por Cunha e pela “famiglia” Picciani ficam cada vez mais ricas, elegem e nomeiam cada vez mais “paus mandados” para defender os interesses espúrios que representam, e Pedro Paulo, o espancador de mulheres, cria do Eduardo Paes, será o candidato a prefeito do grupo mafioso que governa quase tudo no Estado, com o apoio do PT e a provável participação da ex-torturada Dilma Roussef no palanque de quem, de acordo com a lei Maria da Penha, deveria estar vendo o sol nascer quadrado.

Tudo isso em um contexto em que o mesmo descaso estatal que permitiu que a lama da Samarco matasse pessoas e ecossistemas em Mariana, permitiu a proliferação de um mosquito que transmite um tal de zika vírus que pode causar microcefalia em bebês em gestação e paralisia em adultos (síndrome de Guillain-Barré), o mesmo mosquito que, segundo uma daquelas falas de Dilma que revelam uma certa confusão governamental, “a gente tem de matar, de preferência antes dele nascer”(hum? Veja em http://goo.gl/nXFRgH).

Apesar do alerta da Organização Mundial da Saúde (OMS) de que a epidemia de zika vírus é um caso de emergencia internacional, aqui no país da gestão do público para interesses privados não só a secretária trabalho, assistencia social e cidadania da prefeitura de Petrópolis, mas todos(as) os(as) políticos, dizem “vai catar coquinho” todos os dias para a população que demanda atendimento médico público (Veja em http://goo.gl/4sjYmb). Sim, todos e todas que exercem cargos de poder sobre a vida nos nossos parasitários governos, parlamentos e órgãos que deveriam ser de justiça, gente boa ou não, são co-responsáveis pelo que prevalece nos seus discursos e atos: descaso, discriminação, desprezo e exploração das pessoas que trabalham para pagar “doações” de campanha e alguns confortos que o atendimento a determinados interesses proporciona.

Tornados ontologicamente canalhas pela dinâmica partidária e por uma sistema político que corrompe a proposta de um Estado Democrático, os(as) políticos(as) de carreira que hoje se digladiam numa disputa insana pelo poder não demonstram a menor preocupação com os impactos que seus atos e suas omissões causam na sociedade. Agem contra a democracia e as instituições ditas “democráticas” os(as) protegem. Do meu ponto de vista, o atual cenário de crise política não é o de uma disputa entre direita, esquerda e suas variações, por princípios e propostas, mas de uma disputa pela condução de nossa institucionalidade conservadora, produtora de desigualdades e muito lucrativa para seus gestores, que os partidos, quando no poder, acabam aderindo. Não há, portanto, neste cenário, sinais de abertura a possíveis novos processos de democratização. Mudanças lideradas pelos políticos de carreira somente aquelas dentro da “ordem” e suportáveis pelo nosso capitalismo parasitário e pelo próprio conservadorismo que prevalece na sociedade, como deixou nítido a repressão estatal e a grande reprovação social dos movimentos de 2013.

Sabemos, porém, que muitas das instituições que o discurso do poder diz que precisam ser preservadas são instituições que, para o bem comum, devem ser destruídas. A ocupação das ruas continua sendo uma forma de, pelo menos, demonstrar indignação. O voto também. Por isso penso que, diante da falta de alternativas confiáveis entre os partidos e os políticos de carreira que se apresentam, o voto NULO nas eleições municipais de outubro seria uma boa forma que dizer que o que aí está não tem legitimidade política e mostrar que queremos outra política, se realmente quisermos.

Mandioca de casca grossa

A semana que terminou e foi, praticamente, a semana de encerramento das atividades da economia e da política em 2015, começou com o aniversário da presidenta Dilma, que comemorou com a operação catilinária, com as manifestações organizadas por movimentos sociais de esquerda que apoiam ao seu governo e com um presente do STF, embora o mafioso Eduardo Cunha, detrator de Dilma e por isso corrupto do mal, já esteja articulando com seus paus mandados uma forma de virar o placar favorável ao governo neste momento. Joaquim Levy, que não tinha mais função no governo desde que o processo de impeachment virou realidade com apoio do “mercado” e que já vinha sendo fritado no governo e pelo corrupto do bem Renan Calheiros, resolveu voltar para o bradesco. Em tese é bom para o país que uma cabeça como a do Levy não esteja mais à frente do ministério da fazenda, mas na prática pode significar mais dificuldades para quem vive do trabalho, pois as oposições no “mercado” e no congresso podem ser maiores, e o governo além de ruim para a democracia, é fraco politicamente. O que Nelson Barbosa assumiu não foi nem um pepino, mas uma mandioca de casca grossa que nem a mais lubrificante das vaselinas funcionará e, por isso, deve ser transferida para a sociedade.

No Rio de Janeiro, Luiz Pezão e o Dom Picciani, fascistas aliados de Dilma, por isso corruptos do bem, chefiam a sangria de recursos do erário do Estado para bancos, empreiteiras, empresas de TV, telefonia, energia, “prestação de serviços”, OS e para o caixa de “recursos não contabilizados” do PMDB e partidos aliados, que custa direitos e vidas (sobretudo de pobres e negros), e resolveram tomar uma medida para pagar integralmente a segunda parcela do 13º dos servidores do estado, parcelada em 5 vezes: conseguiram que o bradesco empreste o valor aos servidores como “adiantamento” das parcelas restantes. Na verdade, são os servidores que emprestam ao governo. Quem não quiser o “adiantamento”, segundo o jornal O Dia (http://goo.gl/iFXpeK), vai até receber as parcelas com um jurinho para “compensar”. Muito pior que isso são as medidas que buscar reduzir recursos para a educação e as pesquisas científicas (PEC 18/2015). No Rio de Janeiro, cujo governo diz não ter dinheiro para nada “por causa da dependência econômica que o Estado tem da Petrobrás”, estamos assistindo a uma cínica e infame sangria de dinheiro público, que custa vidas e direitos, feita pelos gestores do governo e seus sócios políticos e empresariais: 39 milhões para supervia, bilhões de isenções fiscais e 5 vidas de jovens negros para a AMBEV (sem falar nas vidas interrompidas pela política de “segurança” para viabilizar interesses de empreiteiras, bancos e empresas de telefonia, energia, TV a cabo, etc), fim de instituições públicas para viabilizar privatizações de serviços (e transferências de dinheiro público para “prestadoras de serviços”), milhões do Fundo de Saúde da Polícia Militar para empresas especializadas em corrupção (cujos verdadeiros donos devem estar na ALERJ e nos prédios do governo), através de licitações fraudadas, que renderam boas propinas para caixa de “recursos não contabilizados” de oficiais da PMERJ, políticos e partidos.

Com ou sem processo de impeachment da presidenta, a frase “não vai ter golpe” chegou bem atrasada, pois a esperança foi golpeada e nocauteada logo no início do ano, tal como o José Aldo, pelo peemedebismo petista e pelas máfias partidárias da oposição, que insistem numa falsa polarização que é nada mais que disputa pelo poder de projetos semelhantes, um mero terceiro turno pós-eleitoral. Em 2015 foram muitas mentiras e arbitrariedades governamentais em Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Paraná, Goiás e nos estados da federação, foram muitas ações de um banditismo conservador-militar-cristão no congresso, muitas disputas políticas do STF (com belas fundamentações técnico-jurídicas), algumas perdas de direitos trabalhistas, ataques aos direitos de povos indígenas e tradicionais, muitos jovens pobres, negros(as), assassinados e estudantes agredidos pelo Estado, retrocessos nas políticas de educação, de ações afirmativas, de saúde e de “segurança”, aumento do desemprego no setor privado e atrasos de salários em diversos entes do setor estatal, agravado por um voraz aumento de preços de produtos, serviços e impostos. Já estamos pagando mais por menos direitos e respeito. O mar de lama que a corrupção da democracia não conseguiu conter vazou na sociedade e está intoxicada pelos atuais partidos políticos, que estão contaminados pelo peemedebismo, a praga devastadora das poucas possibilidades democráticas da política brasileira. Já houve golpe.

De qualquer forma, mesmo com pouco ou nenhum dinheiro no bolso e com a saúde vendida para as “organizações sociais”, vale comemorarmos Natal e Reveillon, e curtirmos férias e carnaval, pois depois da quarta-feira de cinzas, quando “desce o pano” como diz o poeta, é provável que daremos de cara com uma situação pior que a de hoje na economia e na política. Os(As) políticos(as) e partidos canalhas que se digladiam a favor ou contra o impeachment, todos(as) contra a democracia, não têm a menor preocupação com os impactos que causam na sociedade os seus embates, atos, articulações, omissões e contas na suíça administradas pelo André Esteves e o irmão do Eduardo Paes.

No Estado Brasileiro não parece haver instituição que mereça ser preservada. Estamos num labirinto em que só a antropofagia pode encontrar saída.

Quantas vidas vale um caminhão da AMBEV e os interesses dos que exercem poder?

A ultima semana foi “tensa” e começou tristemente, com 5 meninos negros deliberadamente assassinados pela polícia militar do Estado do Rio de Janeiro, uma instituição infame e racista, com práticas da ku klux klan e do estado islâmico. Neste triste caso há um dado alarmante: na ação de exterminio da ku klux klan azul do Estado do Rio de Janeiro, segundo matéria do jornal O Dia, os agentes da instituição criminosa agiram para “recuperar a carga de um caminhão da cervejaria Ambev, que estava sendo saqueado próximo ao Morro da Lagartixa”. Vejam a serviço de que atua a nossa ku klux klan azul, e vejam do que é capaz essa instituição criminosa, provavelmente, pelo arrego que ganhariam os envolvidos na ação (dois oficiais que deram as ordem de recuperar o caminhão e os quatro pistoleiros, todos do 41º batalhão, segundo a reportagem). Pezão e Beltrame, como sempre, com o cinismo que deixa nítido seu desprezo, mostraram “indignação”. O governo Dilma ficou calado, como costuma fazer em casos semelhantes. E o comando da PM, também como costuma fazer, vai “apurar a conduta dos maus policiais”, como se a ação fosse pessoal e não institucional. E nós nos perguntamos: Quanto vale um caminhão da AMBEV?

Na política, o destaque foi o aceite do pedido de impeachment da presidenta Dilma, pelo presidente do lixão de Brasília, o mafioso Eduardo Cunha. Uma vergonhosa represália do mafioso que causará ainda mais problemas para o país e, provavelmente, tornará mais alta a conta social que os que vivem do trabalho já estão pagando. Do outro lado, a presidenta honesta que mentiu para se reeleger, em seus discursos pós-aceite do pedido de impeachment, se diz o bem que reagirá contra o mal. A lama podre represada na praça dos três poderes vazou e estamos sentindo o seu componente mais tóxico, o PMDB, partido que no Rio de Janeiro mata pobres e pretos com apoio do PT, que por sua vez tem feito as mesmas coisas (o governo petista da Bahia é outro que parece não se importar com os crimes da polícia militar racista daquele Estado). Nada diferente do que faz a aliança PDSB-DEMo em São Paulo e no Paraná. Quanto valem os interesses dos que exercem poder?

Nossa democracia representativa (governos, parlamentos, partidos, sindicatos, associações), cujas pessoas que
ocupam os cargos, a maioria delas, não têm respeito ao fato de terem sido eleitas, cada vez mais se apresenta como “corrupção da democracia”. Novas instituições devem ser inventadas, instituições que de fato expressem em discursos e práticas a multiplicidade de singularidades, além de bancos, empreiteiras e da sua própria sobrevivência. As “crises” que se apresentam no Brasil são, no fundo, componentes dessa crise da representação.

O ciclo que foi inaugurado em 2013 não terminou e continua tentando abrir brechas e ampliar a democracia. Esse ciclo não foi só a potencia das grandes manifestações de junho/13, continuou e continua nas greves dos professores do Rio em 2013, nos rolezinhos, na greve dos garis, nas lutas dos povos indígenas, nas manifestações contra a copa, nas marchas contra o racismo e o extermínio estatal de jovens negros, na luta dos estudantes de São Paulo em defesa da escola pública.

“Eu até acho que eu sou afrodescendente de tanto que apanhei e gosto de apanhar”

Meu Avô costumava usar a frase “apanhou feito boi ladrão!”. Dunga, ex-jogador de futebol bem sucedido e técnico fracassado da seleção brasileira na Copa do Mundo de 2010 e na Copa América de 2015, inovou ao substituir “boi ladrão” por “afrodescendente”, acrescentando que negro gosta de apanhar. Na última sexta-feira, 26 de junho, com a arrogância que lhe peculiar, durante uma entrevista, Dunga disse: “(…) Eu até acho que eu sou afrodescendente de tanto que apanhei e gosto de apanhar. Os caras olham para mim: ‘Vamos bater nesse aí’. E começam a me bater, sem noção, sem nada” (grifos meus). Veja a declaração de Dunga em em https://www.youtube.com/watch?v=0v4piF37jA4.

No mesmo dia, provavelmente após umas puxadas de orelhas em Dunga, a CBF publicou uma retratação do técnico: “Quero me desculpar com todos que possam se sentir ofendidos com a minha declaração sobre os afrodescendentes. A maneira como me expressei não reflete os meus sentimentos e opiniões“ (grifos meus). Embora o pedido de desculpa diga que a declaração reveladora do seu pensamento sobre a pessoa negra não reflete o que ele sente, na opinião de Dunga:
1) Escravo = Afrodescendente
2) Afrodescendente deve apanhar por que é afrodescendente e porque gosta de apanhar (nem boi ladrão gosta de apanhar, mas negro gosta).

Além disso, no texto de retratação publicado no site da CBF, Dunga pede desculpa apenas a quem se sentiu ofendido. Talvez eu esteja sendo muito exigente e muito professoral, mas penso que o pedido de desculpas devia ser ao Brasil, principalmente para as crianças, pois trata-se de uma declaração que ofende um propósito que consta na Carta Constitucional, no Código Penal, no Estatuto da Igualdade Racial, na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Na verdade, penso que a CBF, que diz repudiar o racismo, não deveria manter Dunga como técnico da seleção após declaração que desrespeita mais da metade da população brasileira.

Em tempo: Peço a Dunga, caso deixe a CBF, que não tente ser instrutor da Academia da Polícia Militar ou da Escola de Magistratura, pois as consequências serão muito piores do que ter a seleção brasileira eliminada pela Alemanha ou pelo Paraguai.

Democracia: o desafio é grande e complexo

Vivemos uma guerra midiática, principalmente na web e especialmente no âmbito do facebook, uma disputa política entre governismo e anti-petismo. Uma fração do levante de junho de 2013 está viva, mobilizada e se apresentou nas ruas de várias cidades do país em 15/03 e 12/04 de 2015. Na mídia corporativa assistimos e ouvimos, praticamente, uma só visão das manifestações, a que apresenta o governo Dilma como o vilão, isentando, por exemplo, o PMDB, como se este não fosse também governo. Na mídia corporativa prevalece mais o anti-petismo do que o anti-governismo. Na Web, a esquerda e o governismo apresentam contra-informações, outras informações, pontos de vista e análises sobre o que vivemos atualmente no país e sobre as manifestações. Na Web, o governismo pago ou militante chama os manifestantes de “golpistas”, “elite branca”, “manada”, “manipulados”, etc, inclusive com distorções e montagens grosseiras de palavras de ordem em cartazes. Sim, o racismo, o fascismo, o golpismo, a saudade da ditadura militar e outras coisas que eu classifico de abomináveis de fato estão presentes nas manifestações. Porém, me parece importante aceitarmos, mesmo que pela “direita”, que há uma indignação consciente e pragmática que se expressa.

O governo é também fascista, racista e pau-mandado do Capital parasitário (Vejam isso: http://naofo.de/3u80). A campanha de Dilma mentiu na eleição, declarou que não faria coisas que estão sendo feitas desde de 01 de janeiro de 2015, que ao meu ver não diferem do que seria feito por Aécio Neves, caso fosse eleito. O que pensar diante do ajuste fiscal que torna mais difícil a vida das famílias que vivem do trabalho, sobretudo as mais pobres, que são as que estão pagando a conta da falta de democracia, da corrupção, dos megaeventos, da gestão autoritária e corrupta da política, da economia, dos recursos hídricos, das fontes de energia e até das bombas, balas de borracha e letais usadas contra manifestantes, pobres e negros em nome da “ordem” e da “segurança” (na verdade, em nome dos interesses empresarias que financiam campanhas da direita à esquerda)?

Ao meu ver, governismo e anti-petismo falam a mesma língua e usam as mesmas táticas um contra o outro, defendem políticas semelhantes e só querem o poder. O enigma que a luta pela democracia deve enfrentar é a produção de uma segunda via, pois os interesses biopolíticos e parasitários do Capital parecem prevalecer neste momento, além de todos os crimes estatais-empresarias-partidários que temos assistido desde maio de 2013: redução da maioridade penal e terceirização violadora de direitos em vias de aprovação, projeto de ajuste fiscal do governo (que também mete a mão no bolso dos pobres e viola direitos trabalhistas), projeto do mafioso Eduardo Cunha e mais de 400 achacadores para legalizar o empréstimo empresarial para campanhas eleitorais. A conjuntura é bem desfavorável à democracia, o desafio é grande e complexo.