Poéticas da Sentimentanimalidade

PO-ÉTICA.
A poética, aqui, pretende expressar desejo como ética, imaginação de estéticas, investimento em outro porvir, outras subjetividades. Quer ser criação fortalecida pela crença na desmedida e pelas lutas contra as medidas. É como expresso paixões ensandecidas, sinto saudades sofridas, enfrento instituições bandidas e penso um comum de pretinhosidades. É defesa radical da vida, gritos de singularidades contidas, sentimentanimalidades.

SENTIMENTANIMALIDADES
O sentido da vida é a própria vida,
devir de eternidade finita,
criações e possibilidades,
pulsões insanas, paixões profanas, devorações mundanas,
sentimentanimalidades.

EXÚSEMOS!
Porque ser apolíneo ou dionisíaco
se aqui a essência é tupi-nagô?
Aqui, entre aleluia e amém,
no samba que anima a viagem de trem,
é na macumba cirandeira que expressamos amor
e seu valor Oxalânico, Exusíaco,
fonte do jeito de ser e da fé nessa terra-terreiro de candomblé,
onde a música tem a força do maracá-xuaté,
os corpos da potência do Axé,
e a festa é forma de celebração do que cremos.
Então, Laroyê, Exusemos!
E, com os Orixás e nossos ideais,
façamos em luta a amorosa paz que queremos.

LÓGICA
Se o amor vivifica, fortifica, edifica, amplifica, modifica, simplifica, unifica, corporifica, então fica pra ele nos corporificar; senão, desmistifica, especifica, dá uma dica, me explica, justifica o que significa não nos termos para amar.

TESSITURAS
Minhas dores, meus amores, os esplendores e horrores que investem em minha vida, que me fazem mergulhar na desmedida, passam por releituras, por recomposição das partituras, por novos tons com cheiros de flores e bons sabores de beijos que causam tremores e deixam gosto de vinho na boca, por sons do roçado do corpo sem roupa do amor da minha cor que eu desejo chamar de meu. Quero outras tessituras, muitas formosuras e responder com ternura ao que me afeta, ser meu próprio deus, um poeta.

DESEJO VADIO
O tambor que no peito palpita, num ritmo sem destino, faz-me sentindo ainda menino mergulhado em fantasias. Num caminho indefinido maior que meu tempo de vida, sou amante do amor que em poesias irradio. Sou apenas um desejo vadio.

MINHAS COMPETÊNCIAS
Desejar, buscar, encontrar, vadiar, amar, me lambuzar e me perder. Questionar, pesquisar, pensar possibilidades, escrever pretinhosidades, desensinar e ajudar subverter.

TÃO PERIGOSO QUANTO
São demais, nesta vida, os perigos. Mas sem sentido, tão perigoso quanto gostoso é viver e poder experimentar com gosto os perigos, ver o monstro, constatar que não há abrigo onde posso me abrigar, além dos bons amigos. Tão perigoso quanto gostoso é se entregar no lampejo ao desejo, ao amor com sem segredos. E para assustar o medo da dor que o perigo causa, dar uma pausa pra celebrar e descansar do cansaço que a vida impõe, de preferência com a doçura do bolo de mãe, antes de continuar.

VIRALATTES
Além da metida universidade, há intelectualidade e vida na desmedida academia da vadiagem, que tem estudo sobre tudo, coletivos de pesquisação, fichamento da realidade, criação e discussão de pensamento, ciência feita lenta no dia a dia, sem a tormenta da monografia e a rabugenta banca que avalia, onde há debate, arte, poesia, aprendizagem criativa, ações afirmativas, produção de tecnologia, outras epistemologias, inovação por toda parte. Melhor e mais produtiva é vida de viralattes.

MULTIDÃO DE VIDAS
Há em mim muitas vidas,
as falecidas,
as envelhecidas,
as rejuvenescidas,
as recém nascidas,
as que entram através da comida,
as que morrem com bactericidas,
as parasitas,
as que me recriam todos os dias,
a enfurecida,
a suicida,
a homicida,
a que quer a partida,
a eticamente vadia,
a sem medida,
a que acredita,
Há em mim multidão de vidas.

EU SOZINHO
Sozinho preciso ficar suficientemente. Sozinho além do suficiente, fico querente, quero sorrisos e quero carinhos, tenho vontade “di-ver-gente”. Sozinho além do suficiente, fico na rede e fico com sede, bebo aguardente. Sozinho além do suficiente, dói uma dor lá no fundo, e com dor eu me masturbo, fico muito indecente. Sozinho além do suficiente, pelo teu corpo imploro, águas transbordam os meus olhos ao ver foto da gente. Sozinho quando necessário meu imaginário cria intensamente. Sozinho eu faço poemas, teses e teoremas, não descanso a mente. Sozinho imagino urgias e antropofagias, pra romper correntes. Sozinho eu penso em política e elaboro a crítica, subversivamente. Sozinho sentimentalidade e animalidade em mim são convergentes.

AMOR COMUM
Amor comum, muitos num, como nós querendo ser um só depois do nó que nos fizemos ao encontrarmos eu e você naquele lugar, com aquele olhar, para experimentar a surpreendente surpresa que foi a beleza de encontrar, tocar e começar o que não passa, a sentimentanimalidade, a amizade, o apreço pelo que somos juntos, a suavidade devassa, o vigor, tudo que nos faz um e muitos num comum de amor.


VERSOS GEMIDOS
Com tanta saudade e desejo à nossa espera, finalmente te vejo, e tu se achegas querente lindamente negra, não nega vontade, e já de blusa arrancada e calcinha rasgada se entrega à desesperada língua molhada que te invade pra sentir, na fonte melada, o gosto bom e o som da respiração que aos poucos vira grito, quando a penetração com tesão faminto faz imergir os corpos num escrito de antropofagias, a compor com tremidos os versos gemidos de uma doce poesia.

ANEGRIA
É no encontro dos nossos olhos, na energia da tua anegria indecente, no arrepio ao toque das mãos, que, cheio de emoção, o amor morre de amor suavemente.

BELEZA PRETA PURA
Menina cor de ternura, Moça de muita bravura, Mãe carinhosa e dura, Mulher que ama sem compostura. Beleza Preta pura, que dispensa pinturas, mas se enfeita pra deixar além de perfeita a sua formosura.


BOCA INDECENTE NUA
A boca é algo mais que fala quando não se cala de qualquer jeito. Em antropofagias de desrespeito à hipocrisia da moralidade, a boca com monstruosidade, e sentimentanimalidade, grita e pode fazer gritar, quando degusta, morde, chupa, quando sua potência assusta ao expressar desejo e tara. Vestida do vermelho que insinua, a boca indecente é nua, e quando vândala no amor ou na rua, é revolucionária.

IVAN
Eu, No afã de descobrir a vida,
ouvia e admirava o que sempre falava Ivan, meu Pai,
que com palavras, gestos, samba e bons afetos,
me dizia “Filho, estude, se cuide,
pois viver é produzir in(ter)dependência,
louvor da imanência, insistência em fazer e fazer-se Amor”.
Hoje, com saudade, sou seguidor dessa Pretinhosidade
e fã do meu Pai, Ivan.

LUSIA
Lusia, Filha de Joaquim e Maria,
Negra menina bela
que conheceu Ivan, ficou fã,
virou do Nascimento
e corpo do meu nascimento,
eu saí de dentro dela.
Lusia, Mulher Pretinhosidade
que me ensinou a vida,
com seu peito,
a suavidade do seu chinelo,
suas frases de efeito
e a formosura do seu jeito singelo
de cuidar, de amar,
de preparar o chá que cura
e a vitamina de abacate
que dá gosto bom à memória.
Lusia, Mãe de Cacati e minha,
Vó das nossas crias,
Mãe da nossa trajetória.

A GENTE
Um gozo
pretinhoso
querente
grandioso
fervente
amoroso
indecente
sem censura
que é comum
nos faz um
de misturas
e chamegos
lindamente
com a boca
sem a roupa
corpos negros.
É a gente.

MOÇA DO RIO BONITO
Moça do Rio Bonito Cabedelo. No pôr do sol com bolero, seu sorriso e o seu belo black power no cabelo é pura suavidade. Moça de pele escura, graciosa formosura, linda Pretinhosidade.

POR ISSO SOU BLACK BLOC
Não quero mais injustiça, não quero mais que matem pobres, não quero mais que matem negros, não quero mais crimes de polícia. Quero viver em sossego, quero o fim do ódio racista do BOPE, quero o fim da covardia do Choque, quero o fim da UPP, quero ver o amor prevalecer. Por isso sou Black Bloc.

GENTE DE AMOROSA FÚRIA
Gente que resiste,
gente que insiste,
em não se deixar remover.
Gente criativa
de novas possibilidades,
gente produtiva
de pretinhosidades,
gente que apenas quer ser
feliz na sua favela
sem a imaginária cela
imposta pela UPP.
Gente que vive da sua labuta,
gente que ensina o amor luta,
contra o parasitário poder
do capital ditadura,
das empresas e sua prefeitura,
do Estado e a sua polícia espúria,
e contra outros filhos da puta
que, de terno e toga,
a serviço dos que vendem droga,
temem que essa gente junta,
com sua amorosa fúria,
convençam toda gente a crer
num mundo diferente,
num comum de muita gente
em outra forma de viver.

FRÁGEIS IMBECILIZADOS
Frágeis corpos revestidos, de azul, de preto, camuflados, mexidos pela caveira que lhes tira o coração do peito, ex-gentes perdidos, raciocínio destruído, embrutecidos e armados. Com cérebro retirado e agir adestrado pelo militarismo, os frágeis corpos manipulados são máquinas de barbarismos para o poder e para os que ganham em manter um Estado de Exceção que aqui é o normal de um Estado que é só covardia, um “passa-e-fica-a-dor” sem um pingo de amor e pronto pra fazer morrer sem compaixão, com euforia. Frágeis corpos fardados, soldados imbecilizados que não conseguem ver que estão a serviço do mal, que são milícias do capital que viola a democracia pra condenar todos os dias, em favor da gentrificação racista, as pessoas das favelas ao sofrimento desmedido, ao risco de ter ao lado uma vela para os lucros de uma corja. Aos frágeis corpos tornados bandidos por um Estado fascista, Deus, peço sua misericórdia.

ESCÓRIA
É triste, mas infelizmente existe algo que faz de alguém ex-pessoa que quando fardada e armada perde a inteligência, é apenas violência a serviço do poder fascista. Algo que transforma gente em escória racista, que interrompe histórias que poderiam ser muito mais, ser de proteção à paz, ser coisa que outros não temem. É triste ver no que se transforma alguém que se torna PM.

PORVIR
Possa eu aprender mais na relação, nas ruas com a multidão e nas salas de aulas onde ensino. Possa eu envelhecer para viver a emoção de um devir menino. Possa eu fazer mais amizades, experimentar novas viagens e, para o mundo, escrever mais sobre o comum e as pretinhosidades. Possa eu, à minha Preta, me doar como oferenda, na desmedida devoção que me faz devoto dela. Possa eu, junto a ela, em nossas animalidades, produzir sua-vida-des. Possa eu ver meu filho pai e também ser pai de uma filha, pois crianças tem olhos que brilham e nos fazem sentir bons afetos. Possa eu contar histórias, quem sabe até jogar bola, com netas ou netos. Possa eu conhecer mais, pois falta em mim muito do que ainda não foi vivido. Possa eu, no porvir, mais lutar, mais cuidar, mais amar, provar o que me falta ser sentido.

SOU
Sou
mais eu
quando nós
somos eu e você.
Sou eu em nós,
ao me entregar
em meu lugar
você.

LAMPEJO
No vazio da noite, num sonho-açoite
em que, feito navalha, alguma coisa corta,
de repente em minha frente, num lampejo,
a dona do que desejo fala ao abrir a porta:
não mais espero, mas eu quero, volta!

ENVOLTA
Com volta, eu sonho um novo encontro, um reencontro com a suavidade que em nós continua. Com volta ao lugar que sinto meu, seremos de volta o toque de mãos, o olhar que insinua, o sorriso, o cuidado, a emoção do beijo na boca exagerado pela saudade e aquela vontade louca que o corpo nunca esqueceu. Envolta, vivi a ilusão de negar a devoção que não desapareceu. Com volta o comum de amor se afirma. Em volta a tristeza é forte, mas anima a certeza que, por volta, grita em voz alta. Por volta, diz a voz, em nós somos eu e você o que falta.

CONTINUA EM MIM
Sem pensar, te perdi tentando me encontrar. Sem querer, fiz você desapegar. Sem você, sem sentido é o meu sentir. Sem sentido, é a saudade que está comigo. Com saudade, o meu corpo é só vontade da energia que gente dizia que seria sem fim. Sem você, o lugar que fizestes continua em mim.

INSUBMISSÃO
Insubmisso ao feitiço de uma tenra beleza e à delicadeza envolvente de um canto de Ossanha, que por pouco não me apanha de vez com a sutileza do seu canto, o vandalismo desejante que me ocupa me fez perceber, sem o moralismo da culpa, que é teu acalanto o recanto, a prenda guardada na memória do meu corpo, aos poucos feita da história que fizemos e do que temos ainda a fazer, juntos, num comum de amor, eu e você.

NUM NÃO LUGAR
Sem ela o tempo é lento, é um silencio que preciso lenço para me acompanhar. Sem seu alento me sinto num não lugar, e devagar, numa estrada que leva a nada, sem a pretinhosidade de prenda. Faltam sentidos, sobra sentimentos contidos, me acho sempre perdido. A vida ficou mais lenta.

PARA O LEVANTE CONTRA O RACISMO
É de causar asco. Negros pelos cartolas vetados, negros invisibilizados pelo carrasco, negro refém do partido-tribunal. Negros presos por serem negros não são poucos, Baiano e muitos outros que não podem pagar o arrego ao desembargador. Negros mortos por serem negros, Amarildo e outros pais, filhos e maridos, pelo horror armado Estatal. Negros sem o respeito da Igreja intolerante que produz cristãos ignorantes, negros sem direitos e com medo da polícia que faz do policial capataz, dos doutos feitores do judiciário e das milícias do deputados. Tem negros assassinados e humilhados todos os dias no noticiário. Mas se é negra a população, a carne da produção, o devir da hibridação e a cor da multidão, então boicotemos o injusto judiciário, a abominável polícia, o deputado chefe de milícia, a empresa do sinhô-empresário, o preconceito da cerveja, a discriminação da igreja, o evento que veta negros artistas, e façamos da indignação um levante pela destruição de tudo e todos que são racistas.

O QUE PROCURO
O que procuro? Talvez a vista desde um mirante, um lugar escuro onde eu possa ser desejante, devorante, gozante, impuro. O que procuro não sei, mas sei que não é porto seguro, não almejo futuro, mas um caminho inseguro, um corpo sem o muro da moralidade, uma vadia imprevisibilidade, um comum onde misturo possibilidade ao desejo. Sem utopia e esperança, não procuro nada além da sentimentanimalidade monstruosa do teu beijo.

ME PERDI, TE PERDI
Me perdi de nós no tempo, deixei o vento do tédio me levar, deixei-me levar pelo assédio das capturas, deixei de ser amante da formosura que somos juntos. Descuidei, precipitei, abri ferimentos profundos, difíceis de curar. Me perdi, perdi você, nos deixei e deixei um belo amor ao deixar o amor morrer por falta de cuidar.

ACABOU A REPRESENTAÇÃO
Acabou a representação, o mito da cordialidade, a “democrática” falsidade. Nos encontramos agora num papo reto, num embate direto, com os exercem o poder, os que vivem da corrupta exploração. Que a virtude da multidão afronte a fortuna e suas tropas de maldade e exterminação, com ocupação contra o estado constituído, com amor constituinte de formosuras, com bravura pra fazer fissuras no que deve ser destruído pela reconstrução. A defesa da vida, da liberdade e da igualdade, pela desobediente desmedida contra a elite canalha, será produzida por quem de fato trabalha e por justiça tem sede, por pretinhosidades nas ruas e nas redes, sem mediação.

DE NÓS NÃO VAI TER ARREGO
Em nós o desejo é maior que o medo. E pra você não tem segredo, nós somos, monstruosa e nua, a multidão que não vai sair das ruas e nem vai dar arrego ao poder da covardia. De nós a tua paga é enfrentar a praga da democracia. Tu que cumpres ordens de bandidos, vais ficar espantado com tantos amarildos mascarados sem a máscara da farda. Em nós o amor é a arma que não vai te dar sossego, a corrupção armada de nós não vai ter arrego.

AMARÉ, AMARILDO
Amar é a Maré,
que o BOPE dez-terminou.
Amar é Amarildo
aquele que a UPP matou.
Amar é a manifestação
sobre a qual o CHOQUE avançou.
Amar é a máscara
que a lei do poder criminalizou.
Amar é a marcha da multidão
contra os bandidos e seu governador,
é ocupar palácios, quarteis e praças,
é quebrar as vidraças da corrupção,
é produção do amor na luta,
aqui, nua, na rua, na disputa,
com pretos, pobres, prostitutas.
Amar é ato de revolução.

ALERJ(IA)
ALERJ dá alergia. Lá bandidos são a maioria, uma escória de vendidos aos interesses mais escrotos, um esgoto de hipocrisia fedida, que veneno pra rato não dá jeito, e por isso deve ser destruída. Lugar de violar os direitos e de fazer covardia, a ALERJ dá alergia.

PM
Hoje, mais uma vez, fui incomodado violentamente e desrespeitosamente por um agente do Estado, do qual já sou fregues, um policial fardado que fez bem sua missão. Eu vinha da manifestação, dirigia um carro, sou professor em greve e preto, então ele fez a cena e mandou o escarro: “é tudo que não deve, tenho que por algema, pois você é suspeito”. Era um jovem rapaz, mas tinha olhos de rapina, estava querendo propina e doente psicologicamente da fragilidade de se achar autoridade autorizado a violar direitos. Tive pena do capataz, que é formado pelo racismo e pelo autoritarismo do militarismo e da corrupção que quer sobre nós barbarismo ao lhe dar arma na mão.

RACISTA É HORROR QUE DEVE SER ELIMINADO
Racistas não gostam dos que lhes são diferentes. Um racista, na verdade, não gosta de outra gente porque se vê inferior, e por isso usa o terror e ataca feito lobo violento. Tem racista com talento, que apresenta jornal da globo, que é produtor de publicidade, que comenta fatos no rádio, que insulta jogador negro no estádio e é ator de novelas do horário nobre. Racistas entram em favelas pra deixar no chão corpos de pobres. Racistas não gostam do plano de termos aqui médicos negros cubanos, porque são negros e têm mais conhecimentos. Racistas do CRM são como PMs, inventam argumentos ridículos, pra não dizer que não gostam de pobres com dor. Para o racista pouco importa o currículo, o que incomoda é a cor. Racistas, muitos deles e delas, ensinam em escolas, universidades, são contra as cotas que promovem a igualdade e omitem que áfrica é berço da humanidade. Tem racistas donos de empresas e racistas que dizem que sua empregada até come sentada com eles à mesa. Tem racista deputado-pastor, tem militar-deputado racista, racistas temos bastante, tem racista defensor, jornalista, filosofante, delegado, tem racista promotor juiz deputado capataz do governador mascarado. O racista é um horror que deve ser eliminado.

UPP
Unidade de Polícia Pacificadora. Parece piada o nome dado a Unidade Produtora de Perversidades, desrespeito e violação de direitos de pobres e pretos na favela, e maldades que a novela não revela, mãe sem filho, família sem pai e marido. Aliás, onde está o negro Amarildo? Unidade de Pessoas Psicologicamente-frágeis, tornadas máquinas de morte ágeis, sem crenças e expectativas nas possibilidades da paz pelo amor, abominações cognitivas que quando “passam fica a dor”, agentes fardados pelo horror do Estado terrorista e da gula empresarial, capachos de uma elite nazista e da branquitude racista, sem coragem de transgredir as ordens do mal. Unidade de Pilantragem Policial.

FUNK
Rebelião na rua é Funk, Funk na rua é rebelião. Arte de corpos impuros despidos de moralismo, juntos e ungidos na resistência comum ao caô da discriminação, de uma tal resolução, denuncia do horror armado da escória de fardados a serviço da exploração. Funk não é coisa que esquenta, é grito que se alimenta de gente junta na luta sofrida, potência ao som do tamborzão, defesa da vida contra o racismo, negroperspectivismo da favela em expressão.

NÃO É POR VINTE CENTAVOS
Não é só por vinte centavos que explodiu o levante nas ruas. É pela defesa da vida minha, pela defesa da vida sua. Não é por vinte centavos que a multidão, monstruosa e nua, enfrenta o caveirão, os assassinos do Estado, não respeita deputados e nem os grupos no poder. É por nós, por mim e por você, que o atentado à ordem e progresso quer o efetivo acesso de todos aos direitos. Não é por vinte centavos que xingamos prefeito, governador e presidente, é por toda essa gente que não mais aguenta, que não quer mais a corrupção que a representação representa, que quer vida digna e paz e não tolera mais o entreguismo de tudo ao capitalismo que só explora o povão. Por isso que o comum-ativismo, contra a exploração, a homofobia e o racismo, se faz antropofagia. Não é por vinte centavos, mas é contra tanto cinismo, que a potência do vandalismo exige democracia.

ME LEVA
Fica, não parte. Temos artes ainda a fazer, desejos ainda a sonhar, impossibilidades pra possibilitar juntos, eu e você. Sem a tua suavidade vai ficar o frio, um vazio vai ficar na tua ausência. Não sai da gente, não perca a crença, seremos quentes nós em nossa presença se você ficar. Releva, mas me leva se for pra não mais voltar.

NÓS É UM NEGÓCIO BACANA
Nós é um negócio bacana. Depois de uma agitada semana acordamos juntos, e juntos fizemos preguiça na cama, o café da manhã, com pães, frutas, suco de maçã e fomos para as tarefas da casa. Primeiro, no supermercado, compramos um bocado de coisas, vários ingredientes, escolhidos afetivamente, para fazer um prato de massas. Na verdade, a compra foi pra fazer o jantar, pois a nossa vontade para o programa da noite era apenas ficarmos conosco. Pondo produtos no carrinho, uma prova de carinho, recebi dela um doce olhar e lhe dei um beijo no rosto. Lembramos então da importância do vinho, que harmoniza, suaviza o paladar e deixa na boca um bom gosto. De volta em casa, ela cuidou da sala e do quarto, eu de cozinha, banheiro e quintal. Na arrumação encontrei um retrato de um jovem casal há anos atrás. Paramos o tempo para falarmos do tempo que isso faz, quando a gente ainda era temente do que seríamos juntos. Hoje isso não tememos mais, pois o que parecia território incerto, deu certo e agora nós é o nosso lugar. A fotografia ajudou muito a emocionar o jantar, preparado em parceria, que com o vinho selecionado teve gosto de poesia, lembranças de aventuras que vivemos, planos do que ainda queremos, assuntos da atualidade, promessas de suavidade e, tomados de animalidade, fizemos de nós sobremesa, deliciosa impureza sabor de pretinhosidades.

MOÇA BONITA
Pra você, moça bonita,
Pro teu gosto bom de vinho,
Pro teu suave carinho,
Pra tudo teu que me excita,
Pra tua boca que atiça
Pro teu beijo delícia,
Pra fera que devora e assusta.
Pra você que me degusta,
Pro teu cheiro de terra molhada,
Pra você, Pretinhosidade amada
que habita os meus sonhos.
Flores, beijos, meu desejo
e as bobagens que componho.

SAUDADE
Saudade, palavra doce que traz tanto amargo. Saudade é como se fosse espinho cheirando a flor. Saudade, ventura ausente, uma dor que o peito sente sem saber como e por quê. Um desejo de estar perto de quem está longe de nós. Um és, não sei ao certo se é um suspiro de incerteza que uma esperança alivia. Essas três sílabas hão de compor uma bela canção. Bendita a dor da saudade que faz sentir o coração. Saudade, numa carta ou numa flor um olhar que de lança. Saudade, irmã da esperança.

MANIA MINHA
Ela é gôsto que não some, Axé d’Oxum que me preserva, fome que me consome, é pra onde todo atalho me leva. Dela, a vontade só aumenta, e pra ela, que fez seu lugar em mim, que é lugar onde devo estar, sim, quero me dar como oferenda e com amorosidade. Pois ela está em meu tudo todo dia, é dengosa mania minha, minha Pretinhosidade.

PENSO EM VOCÊ
Penso em você. Imagino você naquela porta, entrando pra ficar e recomeçar de onde paramos. Penso em você de volta e na volta que a vida deu em nossas vidas. Frente à saudade que parece infinita, penso na pretinhosidade que fomos, nas coisas que não começamos, no que deixamos de viver, eu e você, no que permanece no armário vazio, no calor grande do norte e de janeiro dos rios e nas noites gaúchas de frio das nossas viagens, nas vadiagens que ainda podemos fazer, eu e você. Penso, a partir da lembrança que não deixa esquecer, em nossas andanças por aí de mãos dadas, nas tuas queixas e no que te dizer. Penso agora em mais nada, apenas em nós novamente, eu e você.

DESDE QUE DE NÓS FOMOS EMBORA
A saudade bate, abate, te procura. Pelo teu corpo implora. Mas sem cura, desde que de nós fomos embora, o que sinto é somente vontade da pura imoralidade, da suavidade impura, daquela melada ternura no gosto de nossas bocas lambentes. É grande em meu corpo a saudade das pretinhosidades que somos nós para a gente.

VOCÊ QUANDO AMA
Você quando ama é insana, não cansa e, como criança, reclama querendo mais, querendo o mundo, querendo tudo em você, que quando quer faz loucura com o que tem, e faz muito bem, faz com prazer. E como você, mulher que me faz despedir com vontade, é pretinhosidade que ao sair me deixa sempre à espera. Você quando ama se inflama, é orgasmaravilhosamente fera.

MAGIA
Eu com saudade, cabeça confusa, sem direção. Ela, pretinhosidade intrusa cheia de amor, me usa e com seu sabor fez mais confusão acontecer. Ela é feiticeira, não dá pra correr desse encanto e não há quem não queira a energia que ela traz quando chega. Eu em busca de paz e me surge, linda, essa nêga frente ao meu rosto. E agora, sempre mais a cada dia ela é a própria magia que me prende ao seu gosto.

GOSTO DO CUIDADO DELA
Ela chega sempre com sorriso no olhar e, cheia de graça, me abraça e logo depois de beijar pergunta como foi o dia. Sempre reclama da minha olheira e que não usei hidratante na canela. Generosidade e alegria, Pretinhosidade bela. Gosto muito da energia e dos cuidados dela.

ENXAME
Eis que surge um monstro emergente,
um movimento que cresce potente,
intolerante aos governantes que disputam
o dinheiro das empresas de rapina,
indignados contra filhos da puta
de terno, de toga e de farda,
contra a armada estupidez truculenta
que odeia negro, pobre
e quem não paga propina.
É levante dos que não mais aguentam
a esnobe podridão,
a suja negociação,
o racismo da remoção,
o choque de segregação,
a negação de direitos
e tantos outros desrespeitos,
como o aval pra matar pretos
concedido ao policial.
É o levante contra a política
a serviço do Capital.
Chegou a hora da crítica
ser desobedientes com cede,
ser fome de democracia,
fazer-se antropofagia,
constituir-se em redes.
É o Comum pelo fim dessa farsa,
Multidão num enxame de massas,
ocupando mídias, ruas e praças
num grito de arrebentar paredes.

COMUM
E o Comum, o que é?
É um conceito em aberto,
É algo ainda incerto,
monstro em constituição,
confluência de Axés.
Mas o amor é seu ponto de partida,
e seu preceito a multiplicidade,
pretinhosidades em produção de direitos
e de expressões de humanidade e vida.
No Comum as diferenças
não são indiferentes,
o que importa no Comum é gentes
e o ser pleno é a crença,
o Comum é relação.
E relação em outra estética,
é quilombismo como ética,
é expressão de um outro mundo,
não é representação,
é democraciocupação.
No Comum somos Ubuntu.

LEVANTE DOS BAMBAS
Sonho e aposto que está chegando o dia
em que a elite fascista,
por seu ódio racista dos pobres,
pelo o que sua burrice fardada considera nobre,
será, pelo levante da democracia, eliminada,
transformada em feijoada
num sarau de funk e samba.
Será o levante dos bambas,
a festa do povão,
onde ao som do amor nos atabaques,
as muitas pretinhosidades
farão a nossa cidade
do Comum a expressão.

FAÇAMOS AGORA UM ATENTADO
Pra você que anda apressado,
preocupado com o tostão
e olhando para o relógio,
eu tenho um recado:
Vá com calma, a morte é certa,
ouça o grito indignado,
indignados e cheios de ódio ,
deste agonizante poeta.
Você escuta?
Você enxerga?
Ainda não percebeu que na calçada
há corpo maltratado, desrespeitado, assassinado.
Há crianças mortas na porta da igreja
que tu rezas na missa.
Há pessoas pedindo pão no bar que tu bebes cerveja.
Há gente precisando de casa pra morar,
sendo expulsas do barraco que conseguiu levantar.
Por canalhas de terno e bonecos fardados,
caveiras racistas armados
com muito sede de matar.
Enquanto você assiste novela
eles invadem favelas
e oferecem às pessoas o caixão,
se orgulham do corpo que deixaram no chão
com a marmita suja de sangue
e cheia de um suado arroz com feijão,
de um homem negro, pobre, sofrido, oprimido,
De mais um Amarildo fodido,
agora desaparecido, torto, duro e morto,
com a manchete do jornal que ironiza,
com a mãe ao lado que agoniza,
e com o filho que fala:
“Pai, levanta, vai chegar atrasado,
sua comida está no chão”.
No sonho da menina eu acabou de ser morta
havia deus, marido, véu, grinalda.
Seu irmão, que assistiu tudo atrás da porta,
agora sem pai e mãe, lhe resta a tia e a fralda.
E foram eles, os vermes de farda.
E você? É, você que me lê agora,
pense um pouco na vida,
olhe um pouco pra fora,
não aceite o que assiste, agite, grite!
Podemos transformar, acredite.
Podemos destruir o deus que cremos
e inventar um deus mais justo,
pois pra não morrermos de tiro ou susto,
é preciso acabar com o poder imoral,
com a unidade de pilantragem policial,
com o governo servidor do Capital,
destruir pra construir justiça e paz.
Deixemos de ser covardes conformados,
façamos, agora, um atentado!
Pois amanhã será tarde demais.

NAMORANTES
Quanto mais nos queremos, mais querência. Mais incomoda a ausência de você e eu em nós. Mais o nosso cheiro nos lençóis se afirma. Mais o amor se anima a nos fazer namorantes, amantes desse juntos na vida. Mais o teu corpo ofegante me compõe, se impõe e ocupa o meu. Mais tua antropofagia, indecente anegria, faz desse encontro um encontro com Deus.

PRENDA MINHA
Com você fui além do lugar onde nunca foi ninguém, me sinto sem, cem mil, senil, sentimentos, sentindo coberta quentinha. Companheiramada, eternamorada, para sempre Prenda Minha.

EM PAR
Me quero em você,
indecentemente amante,
em ritmo estonteante,
sem medida, intensamente,
para te ouvir gritar de gostar,
e para, em par, imoralmente,
porém suavemente,
sentir o amor melar.

QUANTO MAIS
Quanto mais nos encontramos
mais dá vontade de encontrar.
Quanto mais abraços
maior a vontade de abraçar.
Quanto mais você me olha
mais meu corpo te implora,
e, em desmedida devoção, te adora
Quanto mais presente é a presença
mais aflora a emoção,
mais intensa é a crença que o que dá saudade,
o que nos faz pretinhosidades,
é a pertença de nós a nós juntos.
Quanto mais o amor se faz ubuntu,
quanto mais eu sou mais você,
mais eu me sinto mais eu,
mais esse encontro me faz entender
que o que falta em meu corpo é o teu.

APRENDIZADO DE UMA VISITA IMAGINÁRIA
Quando estive na África do Sul visitei uma comunidade de etnia Zulu. Lá conheci pessoas, assisti a uma apresentação de danças e pude presenciar alguns costumes, o principal deles era o de fazer as coisas coletivas sempre da forma mais simples e em grupo, nunca uma pessoa só, como quando, no almoço, usei as mãos para levar os alimentos à boca, sentado no chão junto com outras pessoas em volta de um belo tecido colorido onde foram postas as comidas. Tudo muito alegre, solidário, suave e lindo. Já quase na hora de voltar para o hotel onde eu estava hospedado, como havia naquela comunidade muitas crianças e elas gostavam de futebol, propus a elas uma brincadeira para eu me despedir, uma corrida em que a criança que chegasse em primeiro lugar ganharia uma bola como prêmio. Elas imediatamente toparam. Então organizei as linhas de partida e a chegada. Todas as crianças se posicionaram na linha de partida e o combinado era que quando eu desse o sinal elas começariam a correr e direção à linha de chegada. Com tudo pronto, dei a partida e as crianças iniciaram a corrida. Curiosamente para mim, elas correram juntas e chegaram juntas na linha de chegada. Como achei aquilo diferente, eu lhes perguntei porque fizeram isso, ou seja, porque saíram, correram e chegaram juntas. Uma delas me respondeu: É Ubuntu, senhor, somos cada uma e cada um de nós porque nos fazemos e fazemos tudo juntos. O senhor não percebeu que tudo que fizemos hoje, fizemos juntos? Meus olhos transbordaram de emoção. Nunca uma experiência me afetou tão fortemente. Ubuntu, ternura e constituição comum do comum. Pretinhosidade.

APOLOGIA
Há um sentido na vida: viver e morrer. E se sabemos que a morte é certa, porque não sermos poetas e apologetas do Ubuntu, onde singularidades produzem em condições de igualdade, melhores condições para os muitos. Revolução é recriação do ser. Que sentido tem acumular riqueza? Que sentido tem devorar futilezas que devoram subjetividades? Porque acreditar que ter seu trabalho explorado dignifica? Porque acreditar que o catequismo qualifica a um paraíso transcendente? Ora, a vida é experiência imanente, agora e aqui, Aiye-Orun. É porvir incerto, aberto à est-ética da desmedida, é criação destemida, é fazer em comum, o comum.

EXTREMO QUÂNTICO
Quando se vive um amor não romântico, mas extremamente quântico, a gente perde a compostura, vira substância impura, desejo profano, pessoa vadia, e amar, ato de antropofagia de um corpo pós-humano, ardente feito pimenta, sabor que esquenta e queima, efeito que no corpo teima, tesão que só aumenta e aumenta o som do gemido, num agito aflito pra gozar, mistura de mãos e pernas em desmedido espasmo, intensa imoralidade, eternanimalidade, orgasmo que leva gritos a ecoar no ar.

NÊGA
Essa nêga me atiça, nêga que é meu chamego, meu lugar, minha saudade, cheia de dengo e malícia quando diz que o seu nêgo é uma pretinhosidade.

INÍCIO
Eu me sinto no início, no momento em que tínhamos nada, no instante em que fui (en)cantada e me tornei viciada. Sim, tenho por nós um louco vício, que é mais forte cada dia. Desde o início, “descalços na terra molhada”, expressamos poesias, somos antropofagia­, lindas pretinhosidades, eu e você em você em mim, e o desejo da urgência de nós em nossa presença com muita suavidade. Início que não fim.

MULHER DA VIDA
Sou mulher que o moralismo tenta manter constrangida,
uma mulher como outra qualquer,
porém maltratada e desrespeitada
apenas porque sou uma mulher que ganha a vida
oferecendo carinhos e delírios gozantes,
O meu corpo é do homem viajante,
do trabalhador discriminado,
do marido não amado,
do jovem estudante,
do pastor da igreja crente,
do político decente,
do empresário de terno e gravata
do padre celibatário de bata
do nordestino retirante,
do cristão moralista
do João, do Raimundo, do Batista,
o meu corpo é de muitos amantes.
Uns me chamam prostituta,
outros me chamam de puta,
alguns meu chamam “meu amor”, outros de “minha flor”.
Gosto daqueles que me chamam de mulher,
porque mulher é o que sou,
mulher que é muito mais
que um corpo na cama,
uma mulher como outra qualquer,
que também, sangra, sonha e ama.

VENENO PROFANO
Suave veneno profano,
que me faz um amável insano
a querer te sentir gozar,
que me faz corpo que reclama saudade,
Prenda Minha Pretinhosidade,
negra brilhante,
que quando chama
me lanço pleno, amante
dessa morte em que a gente sente
no gozo a vida, eternidade finita,
potencia do ser vivente.

POR OUTRO NORTE PRA CIDADE
Está chegando o grande evento,
o levante Guajajara-Nagô
contra o choque de racismo,
a remoção internação forçada,
o entreguismo e o horror
da armada pacificação
em que o pacificador passa-pra-deixar-dor.
Está chegando grande o dia
dos pobres em multidão,
cansados dos fardados escrotos
e de viver na lama e no esgoto
ao lado do maracanã,
promoverem a grande orgia,
em que o Paes e o Cabral,
e também o tal de Merval,
juntos com seus chefinhos,
marinhos da fundação,
os deputados de quatro,
e juntos injustos juízes
e também generais infelizes,
serão esquartejados
numa comemoração
com macumba, com cachaça,
com gente de todas as raças
e muitas pretinhosidades
pelo fim da corrupção
que é a representação,
por uma outra relação,
por outro norte pra cidade.

CUIDAR DO OUTRO, CUIDAR DE MIM
Cuidar do outro é cuidar de mim,
Cuidar da outra é cuidar de muitos,
Se é só de mim é trabalho morto,
Trabalho vivo é fazermos juntos
é resistir e forçar o fim
de tudo o que é estatuto humano,
em nome do comum profano
das muitas singularidades,
rizomas da liberdade,
crentes na revolução no Ser,
na recusa do dever,
na criatividade etílica,
no imoralismo como política,
na impureza do proceder,
minha conduta é gatunagem,
sabotagem do consenso,
hackeagem, pirataria,
rito de antropofagia,
ato de amor intenso.
Na cidade em que gentrificação
é choque de eugenia
e preto e pobre é porcaria,
nego que a casa é minha vida,
nem nado em MAR de ex-artistas
a serviço da fundação.
Quero viva-a-cidade,
mar de pretinhosidades,
estéticas, de fato, nobres,
porvir da potência dos pobres,
devir de outra relação.

PRETINHOSIDADES
Se somos um comum de amor
e um amor que faz comum,
somos vários produzindo um,
espinhos com aroma de flor.
Se somos feitos de muitos,
somos samba, beleza e Axé,
somos corpo de Mulher,
subjetividade Ubuntu.
Se somos rizoma-liberdade,
somos devoração ativa,
somos açôes afirmativas,
somos negras pespectivas.
Somos Pretinhosidades.

AMOR REVOLUÇÃO
Amor que se quer Ubuntu,
Amor que é mais que um,
Amor além de nós,
Amor que quer no mundo
o Amor pelo Comum.
Amor monstro feroz
e sem pudor estético.
Amor biopolítico,
imoralmente ético.
Amor sabor etílico,
gosto de seriguela.
Amor que exala cheiros
e aromas indecentes.
Amor que goza e mela.
Amor criolidade,
saber e cor da virtude,
Amor negratitude de pretinhosidades.
Amor fé imanente,
que come e refaz a gente,
Amor antropofágico,
devir da criação.
Amor que não é mágico,
que em nada é fantástico.
Amor, porém, fodástico.
Amor revolução.

SOU PORQUE NÓS SOMOS
Sou porque nós somos. Sou contra o racismo, sou quilombismo, negroperspectivismo, e sou porque nós somos. Sou substância impura, sou “tipo carne dura”, sou devoração pura, e sou porque nós somos. Sou di-ver-gente, amante de gente, um tanto indecente, e sou porque nós somos. Sou do amor por mais de um, sou pelo o Amor Comum, sou filho de Ogum, e sou porque nós somos. Sou de criar clivagens e medo branco da malandragem, sou sujeito de vadiagem, e sou porque nós somos. Estou aqui por nossa garra, sou cheio de marra, preto de farra, mas sou porque nós somos. Sou doce no que faço, sou olhar de mormaço, sou de nós um pedaço, e sou porque nós somos. Sou um preto brilhoso, orgasmaravilhoso, dizem que sou gracioso, mas se sou é porque nós somos. Eu sou da macumba, eu gosto de rumba, minha gente é de bamba, eu adoro um bom samba, sou filho de Lusia, neto de Dona Fia, sou Lélia, Joel, Zó, Abdias, sou a luta de Mandela. E sou porque somos juntos amorosidade, luta por igualdade, pretinhosidades. Sou porque somos Ubuntu.

UBUNTU
Fazer coletivo, ativismo,
ética sem moralismo,
ternura, suavidade, africanidade,
criação de pretinhosidades,
amizade, paixão e fé,
crença, devoção e Axé,
Afeto por mais de um,
Algo que expressa nós juntos
na produção de outro mundo.
Amor que constrói o Comum.

VIDA
É destino entregue à sorte
é um caminho sempre aberto,
é multiplicidade de afetos
é medo da inevitável morte.
Mas o desejo de vencer a morte
sai do corpo da mulher,
é motivo da fé
e devoção descabida.
É ocupação e disputa,
é luta e produção da luta,
é caminhada sofrida.
É desutopia,
é crítica,
é fazer política,
é indeterminação,
algo novo a cada dia,
lugar de intensa criação,
encontros e despedidas.
É criação de divindades,
porém é devoração pura,
produção de ternuras
e de pretinhosidades.
É bela eternidade finita.
A vida.

POESIA
Poesia é assim, uma mina que transborda em mim. Tento apropriar-me dela, mas ela, tão generosa e bela, imanentemente divina, sorrindo como menina negra de asas e arco de setas, me abusa, me usa e me domina. É ela, a poesia, que em mim conduz a festa e me convida a falar da vida, a dançar em suavidades e a expressar em meio a dores, amores, pretinhosidades e afirmações incertas. A poesia é a antropofagia que na noite fria e vazia me devora e me faz poeta.

É BOM
É bom me sentir envolvido
pelo teu corpo sem roupa,
vivo a morte dos sentidos
ao sentir tua boca sugar.
É em vão resistir ao feitiço
quanto tu chegas beijante,
despida de qualquer juízo,
vestida de nudez amante,
pronta para devorar.

SE EU PUDESSE…
Neste momento, em que a saudade entristece,
se eu pudesse
Sentir aquele abraço que aquece,
Prenda Minha, beijo que a boca não esquece,
que em meu corpo habita e mexe,
gozo intenso que enlouquece.
lembrança viva em mim, que adormece e amanhece.
Matar esta saudade que entristece
bom seria, se eu pudesse.

MÃE DA PRETINHOSIDADE
Quero, em nome do mundo
e da minha devoção,
te agradecer por ter dado ao mundo
a menina que canta, fascina, ensina
e é pura emoção,
a menina linda mulher,
a mulher com jeito menina,
cabelo benguela,
lábios cor de açaí,
cheiro de terra molhada
e gosto de seriguela,
a menina mãe de menina
e mulher cheia de sonhos
e anima os versos que componho
com gracejo e suavidade,
a menina que saiu da Mulher
que com apreço agradeço,
Mãe da Pretinhosidade.

QUANDO ELA CHEGA
Ao me encontrar, ela vai logo tirando a sandália, se desfazendo da roupa, se esfregando e se entregando. É quando ela se espalha e se revela a louca que com a boca só faz loucuras. Sem compostura, ela segura, consome, sacia a fome. E ao explodir gozante, ainda com o corpo fervente e despido de moralidades, em minha pretinhosidade os olhos transbordam brilhantes uma eterna suavidade.

TE QUERO
Te quero porque és de luta,
Te quero ao alcance da boca,
Te quero pura, sem moda.
Te quero com muita vontade.
Te quero querente, tesuda,
Te quero inteira, sem roupa,
Te quero porque tu és foda
Te quero Pretinhosidade.

NOS OLHOS DAQUELA MULHER
Nos olhos daquela Mulher
há uma pretinhosidade,
um querer felicidade,
uma vontade de ser amada.
Nos olhos daquela Mulher
há uma suave e forte voz
gritando seu desejo por nós
descalços na terra molhada.
Nos olhos daquela Mulher
há uma espécie de encanto,
um materno suave acalanto,
no brilho de sol dos olhos seus.
Pois, nos olhos da negra Carol
há uma intensa negressência,
uma forte resplandecência,
que acredito ser Deus.

AQUELA MULHER
Aquela Mulher é a minha paz,
é a Mulher que me faz
mais desejante a cada dia,
com ela sou Pretinhosidade
e quando tenho saudade
lhe escrevo poesias.
Aquela Mulher me desmonta,
com a boca ela apronta
no meu corpo, ela é a Bia,
mulher formosa, dengosa, fogosa,
minha antropofagia.

PARTURIENTE PRETINHOSIDADE
Negra parturiente
de Mulher negra quebrando blindagens,
recriando-se consciente,
afirmando-se Negra Est-Ética,
em minha vida uma negra sentença.
Negra de doce presença,
que encanta quando canta poéticas
com firmeza, sensibilidade e
convicta da sua negreza.
Negra Pretinhosidade.

PRETINHOSIDADE
Um dia desses eu telefonei e ela atendeu assim: “Oi Pretinhosidade!”. Outro dia, após fazer tranças ela perguntou: “Como está tua Pretinhosidade?”. Pois é, para ela somos Pretinhosidade.

DEVIR JAGUAR
No corpo daquela mulher há mais que uma bela menina, há uma antropofágica felina que achou a presa que quer devorar. Há naquele corpo um devir-jaguar, uma ebulição que a faz amante, uma vontade que a faz indecente, uma fome que a faz querente, e a urgência de gozar que a faz gozante.

SUGAR E SER SUGADO
Sugar e ser sugado, no mesmo ato,
o chupar, o ser chupado, famintas bocas
em corpos que, nesse instante,
pertencem apenas à entrega amante,
vozes roucas sem regras, sem culpa, sem roupas,
que se lambuzam gozantemente
e adoram aninalmente a divina imoralidade,
pra, logo após, suavemente, degustar suavidade.

UMA NO OUTRO, UM NA OUTRA
Um na outra, uma no outro,
a boca, a língua, o pênis, a vulva, mãos que percorrem curvas, mistura e transfusão…
Em teu rosto surge a devorante felina que, cheia de tesão, pega, se esfrega, se entrega
em gemidos roucos, e abraços loucos tão fortes que parece querer sugar.
Mas ao gozar, feito o sol nascente nos olhos surge o brilho,
e nos corpos, ainda em fervente pós-delírio,
tudo é suavidade.

ALMAS
Nos espasmos do orgasmo um Deus, imanente, se revela,
no tremido, no grito, no agito,
naquilo que escorre e mela
e no fogo que o gozo acalma,
abençoando os os corpos que se descobrem almas.

ORGASMO
Eis que chega o instante em que na perda de sentido,
na breve morte após o grito forte,
no tremido gostoso de um suicídio gozozo,
a vida vira festa,
e, sem fôlego, palavras se tornam ofegos e ais…
Momento em que o corpo se enche de paz,
é quando Deus se manifesta.

Depois de mais um carnaval

Depois de mais um carnaval,
em que o ciclo de festas se completa,
mesmo que haja quem não queira
chegamos às cinzas de quarta-feira,
que é, como diz o poeta, o dia que “desce o pano”,
e, portanto, o dia que começa o ano,
que deve se ano de luta
contra o ataque a quem vive do próprio trabalho,
pelo governo autoritário
e o capital parasitário,
o que demanda de nós providências.
Nas ruas e no planalto, e em muitos outros palácios,
pior que feitos de palhaços, que existem para alegrar,
sofremos violações de direitos e todo tipo de violência,
daquelas que dão dor de chorar.
Frente ao Estado-opressão a serviço da corrupção,
é fazendo multidão que podemos exigir respeito,
decência e o direito de seguir vivendo,
e não mais sofrimento como querem os atuais eleitos,
os da igreja do prefeito,
os da escola sem partido,
os imbecis que apoiam o acéfalo “mito”.
É urgente pressionar o congresso nacional,
o supremo tribunal e o imbecil da presidência,
enfrentar os vampiros-banqueiros
que querem mais do nosso dinheiro
e frustrar a reforma da previdência.
O autoritarismo de farda,
o esquerdismo elitista que se pensa vanguarda,
o jornalismo racista, os canalhas de toga-preta,
o conservadorismo, a hipocrisia,
e os políticos serviçais dos picaretas,
ficarão desesperados diante da multidão
e da potência da antropofagia
que vai derrotar o fascismo,
eliminar o coisismo,
barrar o peemedebismo,
superar o lulismo e,
com a fúria feroz da alegria,
vai jogar tudo esse lixo fora
e fazer democracia.
Kairós! É nós! Quem sabe faz a hora.

O Encontro

Aconteceu em uma festa, no dia 19 de julho. Na verdade, ele e ela começaram a se observar cuidadosamente no dia anterior ao da festa, no ônibus que transportava pessoas do local de uma conferência para o hotel onde estavam hospedados alguns dos participantes do evento. No trajeto trocaram olhares que se degustavam olhares quaisquer. Minutos depois de chegarem ao hotel, as pessoas foram para seus quartos, mas minutos depois, no saguão do hotel, trocaram algumas palavras sobre futebol e se despediram.

No dia seguinte, já na festa, encontraram-se casualmente, pois nada haviam combinado. Talvez tivessem até esquecido da degustação de olhares e da conversa sobre futebol no dia anterior. Mas o encontro foi uma boa surpresa para ela e para ele. Trocaram outros olhares, outros olhares mesmo, olhares diferentes daqueles do dia anterior, olhares mais que degustantes, brilhantes, sorridentes, interessados. Mas apesar disso, ninguém tomou a iniciativa de “puxar o desenrolo”, mesmo doidos para se aproximarem. Ele estava cauteloso, pois já havia um malandro jogando um lero pra cima na dela. Porém ele logo percebeu que o malandro não estava sendo bem sucedido com seu lero, pois ela sempre que podia lançava um olhar sorridente para ele, o “Pretinho” que ela achou bonito desde o viu a primeira vez.

E ele, suavemente constrangido por aquele olhar, pensava: “Que Pretinhosidade!”.

Aí a banda de música começou tocar e cantar, as pessoas a ficarem animadas e, consequentemente, caíram na dança, especialmente no samba. E foi quando, ele e ela, Pretinho e Pretinhosidade, começaram também a sambar (no samba Pretinho manda bem!). E aí, dançando e cortejando, um a outra, uma ao outro, as intenções tornaram-se mais perceptíveis, não apenas para ela e ele, mas também para as pessoas que os observavam. Os dois, no entanto, não trocaram nenhuma palavra na primeira vez que dançaram, mas estavam cheios de boas intenções, uma para o outro, um para a outra. “Demorô”, pensava ela. “Já é”, pensava ele. “Saparada”, era o que pensavam os dois.

O malandro que estava jogando o lero para cima dela, malandro velho, logo percebeu que o seu “agá” seria apenas perda de tempo e de palavras. Percebeu, principalmente, que Pretinhosidade, além de não demonstrar interesse pelo seu lero, demonstrava disponibilidade para Pretinho. Reconhecendo então que não dava para ele, o malandro do lero se dirigiu até Pretinho, bateu em suas costas e disse “perdi meu amigo, a bola tá contigo”.

Pretinho e Pretinhosidade dançaram bastante, dançaram muitas vezes. Numa das vezes, quando ele voltava do bar, ela, ao vê-lo, se dirigiu lindamente na sua direção, e de braços abertos, querendo dançar, toda cheia da suavidade maliciosa que o brilho dos seus olhos denunciava. Esse gesto da Pretinhosidade sensibilizou Pretinho, produzindo nele, em relação a ela, um olhar mais interessado e vontades outras. Mas teve também cena de ciúme da parte dela, porque ele, vadio demais (ainda mais com umas manguaças na ideia), circulava e dançava com outras mulheres. Disso ele também gostou e pensou: “Acho que vai rolar”.

A festa chegou ao final, mas ali algo começava a acontecer. Na despedida fizeram um selfie, trocaram números de telefones e deram um beijinho maroto, um quase-selinho. Naquele dia “não rolou”, mas foi o dia de um encontro que deixou uma vontade, início de uma sentimentanimalidade que nem ele e nem ela imaginavam no que ia dar. É, já faz alguns anos que aquele encontro fez mudar muitas coisas nas vidas de Pretinhosidade e Pretinho.

Mais uma vez o Jornal O GLOBO se expressa como porta-voz de interesses racistas da elite brasileira

Em 17/10/1944, o jornal O GLOBO colocou em seu editorial o seguinte: “Uma corrente defensora da cultura nacional e do desenvolvimento da cena brasileira está propagando e sagrando a ideia da formação de um teatro de negros, na ilusão de que nos advenham daí maiores vantagens para a arte e desenvolvimento do espírito nacional. É evidente que semelhante lembrança não deve merecer o aplauso das figuras de responsabilidade no encaminhamento dessas questões, visto não haver nada entre nós que justifique essas distinções entre cenas de brancos e cenas de negros”. Tratava-se de uma crítica ao Teatro Experimental do Negro – TEN, companhia de teatro fundada por Abdias do Nascimento, que “se propunha a resgatar, no Brasil, os valores da pessoa humana e da cultura negro-africana, degradados e negados por uma sociedade dominante que, desde os tempos da colônia, portava a bagagem mental de sua formação metropolitana europeia, imbuída de conceitos pseudo-científicos sobre a inferioridade da raça negra. Propunha-se o TEN a trabalhar pela valorização social do negro no Brasil, através da educação, da cultura e da arte” (1). Ou seja, a iniciativa de Abdias e seus colaboradores, que visava dar visibilidade, no campo das artes dramáticas, à cultura afro-brasileira e oportunizar um espaço a atores e atrizes negros e negras no teatro brasileiro, incomodou o poder e seu principal veículo de opinião, o Jornal O GLOBO, expressou sua crítica (notadamente racista) à presença de negros num setor elitizado e racializado.

Em 24/07/2016, quase 72 anos depois, o mesmo jornal, também em editorial, agora sobre o que no título do texto chamou de “injusto ensino superior gratuito”, publicou o seguinte:

“Para combater uma crise nunca vista, necessita-se de ideias nunca aplicadas. Neste sentido, por que não aproveitar para acabar com o ensino superior gratuito, também um mecanismo de injustiça social?(…) O momento é oportuno para se debater a sério o ensino superior público pago. Até porque é entre os mecanismos do Estado concentradores de renda que está a universidade pública gratuita. Pois ela favorece apenas os ricos, de melhor formação educacional, donos das primeiras colocações nos vestibulares. Já o pobre, com formação educacional mais frágil, precisa pagar a faculdade privada, onde o ensino, salvo exceções, é de mais baixa qualidade. Assim, completa-se uma gritante injustiça social, nunca denunciada por sindicatos de servidores e centros acadêmicos. (…) Quanto aos estudantes de famílias de renda baixa, receberiam bolsas. Além de corrigir uma distorção social, a medida ajudaria a equilibrar os orçamentos deficitários das universidades, e contribuiria para o reequilíbrio das contas públicas”(2). (Grifos meus)

Vale ressaltar, que entre 2001 e 2012, período de um intenso debate público sobre a proposta de cotas para negros (que acabou se concretizando em várias instituições), o mesmo jornal em editoriais e em vários artigos de opinião publicados, expressou veementemente a sua discordância, inclusive com argumentos de que a política de cotas instituiria uma injustiça, além de comprometer a qualidade do ensino e das atividades das instituições. A resistência conservadora à proposta de cotas para negros organizada pelo diretor de jornalismo à época, em parceria com alguns articulistas do jornal, em seus fracos argumentos, não conseguiu produzir uma opinião pública potente contra as cotas, por não conseguir, apesar das tentativas, invisibilizar que o racismo está na origem das desigualdades raciais presentes na sociedade brasileira.

Na Finlândia, onde a educação é considerada a de melhor qualidade no mundo, as escolas e universidades são 100% estatais e gratuitas, públicas de fato (3). No Chile, a gratuidade do ensino superior passou a vigorar este ano, num processo que até 2020 deve transformar todas as universidades estatais em universidades públicas (4). Ambos são países que, vez e outra, a nossa mídia, inclusive as Organizações Globo, apresenta como exemplos de seriedade em políticas educacional e econômica. Porém, parece que para os mesmos que divulgam e celebram tais “exemplos”, discordam de que o Brasil os considerem como exemplos.

A maior empresa de comunicação do país, evidentemente, não expressa apenas pontos de vista de seus donos, mas interesses de determinados setores da sociedade. Desconheço editoriais em que, antes das políticas que promoveram uma pequena abertura do ensino superior público para pobres e negros, o jornal apresenta críticas ao “injusto ensino superior gratuito” brasileiro. Para a família Marinho e a elite da qual as Organizações Globo são porta-vozes, não é injusto um teatro sem expressões, artistas e produções negras, ou uma universidade pública sem diversidade étnico-racial em seus currículos e quadros docentes e discentes (que para eles, agora que está deixando de ser exclusivamente para as pessoas mais abastadas, deve ser paga). Mas são injustas a universidade pública de fato, as políticas de cotas e renda mínima, as greves de professores (5), a taxação das grandes fortunas (6).

De fato, quando processos sociais de democratização fazem a nossa democracia parecer algo além da hipócrita declaração formal de que “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza” (7), incômodos conservadores ganham espaços no jornal. Da mesma forma, quando crises abatem o que incomoda, proposições oportunistas nada democráticas também ganham espaço, como me parece ser o caso do artigo do editorial de 24/07/2016.

As Organizações Globo são, a meu ver, ao lado de Folha de São Paulo, Revista Veja e outros veículos, uma das expressões do racismo parasitário de uma elite que fez e faz riqueza com o trabalho escravo, a superexploração do trabalho mal remunerado, o autoritarismo, a gestão dos fundos públicos em favor dos seus interesses, tudo isso sob proteção e através de um Estado, formalmente dito “democrático de direito”, que para essa elite deve continuar a ser mínimo e implacável para os pobres, principalmente para negros(as) pobres.

Uma ciclovia que pode ser chamada de “ponte para o futuro”

Em outubro de 2008, quando perguntado sobre os efeitos no Brasil da crise da economia americana naquele momento, provocada por uma retração do crédito oriundas dos empréstimos Subprime, Lula disse que, apesar de nos EUA ser “um tsunami”, chegaria aqui como “uma marolinha que não dá nem para esquiar” (ou seria surfar?). Já Dilma, em junho de 2015 (quando já sentíamos que crise não era marolinha), reformou o que Lula afirmou em 2008, disse que naquele momento (2008) foi uma marolinha, mas a marola virou uma onda porque “o mar não serenou”.

Podemos dizer que, de fato, o mar não serenou, ficou mais bravo, fez uma forte ressaca chegar aqui e vem produzindo desastres. O desabamento da ciclovia “Tim Maia”, na Zona Sul do Rio de Janeiro, no último dia 21 de abril, se transformou num símbolo do que o mar que não serenou faz com o Brasil, mas também numa caricatura da falta de transparência do governo federal sobre a real situação da economia (que foi importante para as vitórias de Dilma nas eleições de 2010 e, principalmente, de 2014), e do que vem causando no Brasil e no Rio de Janeiro a aliança entre PT e PMDB, agora terminada pelo PMDB que, além de não querer ser sugado pelas fortes ondas da crise econômica, passou a ver na crise política e na impopularidade de Dilma a possibilidade de ocupar a Presidência da República (pela terceira vez e sem vencer eleições diretas).

A ciclovia contratada pela gestão municipal corrupta de PMDB e PT, e construída por uma empreiteira igualmente corrupta, é a melhor representação do que é a “ponte para o futuro” sobre a qual o Brasil terá que atravessar a crise econômica em que se encontra. A cidade olímpica dos golpes nos direitos e das mortes provocadas por Cabral, Pezão, Paes, Cunha, Piccianis, etc, com apoio e cumplicidade do PT que agora se diz vítima de um golpe e de uma traição do ex-aliado, me parece uma triste amostragem do que a corrupção da democracia que as relações espúrias entre Estado, partidos, políticos e governos com o poder econômico têm feito no Brasil.

O atual processo de impeachment é uma briga de ex-sócios que se desentenderam, não uma disputa de projetos. E o desabamento da ciclovia que devia se chamar “ponte para o futuro” virou caricatura do que o, agora rompido, casamento político fisiológico produziu, da falta de condições de governabilidade com Dilma, da ilegitimidade política de Temer na presidência e da lama podre composta por nossos partidos que a barragem do sistema político corrupto não consegue mais conter.

Que façamos agora, de fato, uma luta pela democracia

O processo de “impeachment” de Dilma não é só uma ilegalidade (digo isso porque os argumentos jurídicos que questionam o uso de decretos e “pedaladas” – termo usado para dar um caráter de crime para uma prática recorrente e nunca antes questionada). O processo de “impeachment” é um movimento político infame operado por um grupo de empresários, partidos e políticos que se aproveitam da crise econômica, da impopularidade de Dilma e do desastre que se tornou o seu governo, e que não suportam mais ficarem fora do palácio do planalto, não querem Lula novamente na presidência em 2019 e são tão ou mais estelionatários, corruptos e corruptores da democracia como passou a ser o governo petista com as alianças que fez. Alias, o processo de “impeachment” partiu de alguns deles ex-parceiros de Lula e Dilma nos ataques ao erário e aos direitos, feitos pelos esquemas de roubo, pela lei antiterrorismo, pela proposta de ajuste fiscal, pelas exigências de desmonte dos serviços públicos aos Estados para a negociação das suas dívidas (em trâmite no congresso) e outras medidas e negociatas. Esse movimento contra Dilma tem como um dos maiores culpados o próprio governo e o PT, que aliou-se ao PMDB, golpeou os movimentos pela democracia de 2013 e 2014, mentiu descaradamente na campanha eleitoral e foi de direita na maioria dos seus atos, utilizou-se e sofisticou as formas de lavagem de dinheiro público para campanhas eleitorais.

Não sou partidário da destituição de Dilma (que vejo como um “golpe no golpe” que fortalecerá e tornará mais violento o atentado aos direitos já em curso). E nem concordo que a defesa de Dilma, Lula e do PT sejam chamadas de “defesa da democracia”. Do meu ponto de vista a defesa da democracia é outra disputa, é luta social por dignidade, contra um sistema político, um congresso nacional e um governo (seja qual for a conclusão do processo) que privilegiam os interesses dos que vivem da exploração do trabalho e do dinheiro que devia ser público. Do meu ponto de vista, nenhum dos lados que disputam o poder no congresso nacional são, de fato, defensores da democracia. Podemos ver isso apenas observando que nenhum dos lados respeitam a vontade da maioria dos eleitores, um porque mentiu, outro porque quer destituir uma pessoa eleita que, apesar de estelionato eleitoral, até agora não tem provado crime que justifique juridicamente a sua cassação.

Em defesa da democracia, independente do que o nosso apodrecido congresso nacional venha a decidir no final do processo de “impeachment” da presidenta da república, é preciso que haja uma mobilização dos movimentos sociais, das pessoas que vivem do seu trabalho, dos(as) servidores(as) públicos(as). Em defesa da democracia, um movimento popular precisa exigir a continuidade das medidas que promovem concretamente os direitos (como renda mínima, remuneração digna, transporte público com tarifa zero, serviços públicos de qualidade em educação e saúde, democratização da mídia e de serviços de comunicação e acesso à informações, fim das polícias militares, ações afirmativas de promoção de igualdade, preços justos que não beneficiem apenas as empresas, sistema tributário justo). Em defesa de democracia, é preciso ocupar as ruas e os palácios, urgentemente, por um novo sistema político.

A saída democrática das crises econômica, institucional e da representação demanda uma constituinte democrática que só pode iniciar-se nas ruas. E, a meu ver, neste momento, após o termino desse ilegal e infame processo de “impeachment” que o próprio PT ajudou a construir, a principal exigência popular em defesa da democracia deve ser a renúncia do atual governo (da presidenta eleita com discurso mentiroso e seu vice golpista) e dos(as) atuais deputados(as) e senadores(as) em favor de novas eleições em outubro, e também a exigência de uma assembleia constituinte exclusiva, sem nenhum(a) dos(das) atuais não confiáveis parlamentares e partidos, para revisar e fazer as devidas mudanças no atual sistema político-partidário.

Após o desfecho do processo de “impeachment” no senado, em que a fome está vencendo a vontade de comer, e parafraseando o que disse o pesquisador Lucas Luz (UNISINOS) numa palestra que proferiu, a luz que aparecerá no fim do túnel não é a luz da esperança, mas a luz de um trem empresarial-partidário em direção às poucas conquistas democráticas que tivemos no pós-ditadura civil-militar e tornará mais difícil a vida de trabalhadores(as), aposentados(as), professores(as), estudantes, juventudes, religiosos considerados “não Cristãos”, quilombolas, povos indígenas, LGBT, moradores de favelas e do trabalho vivo em geral. Só com resistência e ocupação, como fizeram os estudantes de São Paulo em 2015 e como fazem atualmente os estudantes do Rio de Janeiro ao ocuparem as escolas públicas, é possível fazer, de fato, a defesa da democracia. Os partidos e o congresso nacional corruptos que temos, ao contrário, ficarão ao lado da austeridade fiscal, da privatização, do desmonte dos serviços públicos e, pois, da corrupção da democracia. Para promover uma agenda de democratização para começarmos a sair da crise, Dilma não tem condições políticas e Temer não terá legitimidade. Governo, Câmara e Senado liderados pelo PMDB é o pior dos cenários. O Rio de Janeiro é um exemplo de um cenário desastroso liderado pelo PMDB com apoio do PT, irmãos em política até aqui.

Uma ampla luta em defesa da democracia, se houver, será árdua e dolorosa, como já tem sido para moradores de favelas no Rio de Janeiro, para os povos indígenas, para a juventude negra, para as mães que lutam pela dignidade dos seus filhos assassinados pelo Estado, para os estudantes que lutam pela escola pública, para os movimentos que não se deixaram cooptar por cargos e editais, e para outras singularidades indesejadas pelo “mercado” e pelo Estado policial que temos. No meu ponto de vista, como já afirmei em texto anterior, nessa crise produzida pela disputa entre a fome e a vontade de comer, é preciso uma mobilização popular que assuma a luta por um novo sistema político minimamente decente e a retome as pautas de radicalização democrática de junho de 2013 e 2014. Só mesmo um devir Ubuntu das lutas pode fazer do Estado Brasileiro aquilo que ele nunca foi, um Estado Democrático de Direito. Que façamos uma luta, de fato, pela democracia.

Entre a fome e a vontade de comer, a saída é lutar por democracia de fato

A Operação Lava Jato e outras operações eventualmente associadas, a flagrante atuação seletiva da mídia corporativa para determinados interesses, as manifestações populares que pedem a saída de Dilma da Presidência da República, as articulações “golpistas” da oposição política, empresarial e midiática, o processo de impedimento da presidenta no Congresso Nacional, em conjunto recebem a denominação de golpe de estado pelo governismo e seus apoiadores, e também por outras pessoas não necessariamente apoiadoras dos governos Lula e Dilma. Um elemento fundamental na argumentação dos que dizem estar havendo um golpe institucional no Brasil é que o Estado Democrático de Direito que conquistamos está sofrendo um atentado pelos grupos do poder político e econômico.

Desde que a disputa pelo poder que pode destituir Dilma da Presidência da República se acirrou e esse discurso de defesa do nosso Estado Democrático de Direito passou a fazer parte do debate público sobre a crise, fico me perguntando: Que Estado Democrático de Direito é o nosso?

Penso, a partir do que leio e vejo, que o Estado Brasileiro é tão notoriamente de exceção que somente o jornal “O Sensacionalista” chamaria isso seriamente de Estado Democrático de Direito. E nem é preciso exemplificar. Todos os dias tomamos conhecimento de algum fato que mostra o que afirmamos, de alguma morte ou violação de direito oriundas das arbitrariedades, da truculência, do desprezo e do racismo com que instituições de polícia, do ministério público, de defensoria pública e do poder judiciário, e também de governo e legislação, agem em relação às pessoas pobres e negras, e às pessoas que vivem exclusivamente da sua força de trabalho, mostram que é letra morta a declaração constitucional de que o Estado Brasileiro é “democrático de direito”. Dar exemplos de tais fatos em alguns parágrafos é impossível.

Entre 2003 e 2006 (período do primeiro governo de Lula), governo federal e congresso, em diálogo com movimentos sociais, deram alguns passos positivos, políticas de constituição material de direitos em várias áreas, através do PROUNI, do REUNI, da ampliação do ENEM, das políticas de cotas, dos programas de assistência e inclusão social, e de valorização da diversidade, com a consolidação de um programa de renda mínima (bolsa família) que poderia ser o embrião do direito comum uma renda de cidadania, as políticas de cotas, com a valorização do salário mínimo e alguma distribuição de renda.

Mas, nos últimos anos, especialmente a partir de 2013, quando grandes manifestações passaram a exigir a continuidade do processo de democratização esperado com a primeira eleição de Lula, a reação policial do Estado em relação ao movimento, ao meu ver, mostrou que o próprio governo do PT, com a direita e com instituições estatais que foram criadas para garantir que o poder permaneça na casa grande das oligarquias econômicas, de onde nunca foi tirado, determinou um teto para as conquistas que ajudou a constituir, com a forma como chamou para o “diálogo”, como desqualificou e como criminalizou os movimentos de 2013 e 2014.

Para quem vive em favelas, as violações de direitos e os assassinatos feitos pelo Estado fazem parte da rotina, desde sempre, pelo menos em todo nosso período republicano. E isso sequer foi objeto de alguma ação séria dos governos “populares” eleitos em 2002, 2006, 2010 e 2014. Por causa do que o PT fez de bom, o justiceiro Sérgio Moro faz, a partir do que o PT fez de ruim e em doses bem menores, o que a sua instituição sempre fez com os pobres.

Assim, a defesa da democracia não é a defesa de um partido e de um governo que experimenta agora as ilegalidades que utilizaram contra os movimentos de 2013 e 2014 (escutas ilegais, mídia corporativa a serviço de empresas parasitárias, provas forjadas e decisões infames de canalhas de farda, toga e terno) e cinicamente chama os movimentos a lutar por sua permanência. O governo experimenta um golpe do Estado de Direito que nunca existiu e que não foi parte dos seus planos governamentais. Penso que é legítimo a defesa do governo por quem queira fazê-lo, apesar de ser liderado por alguém que mentiu descaradamente na eleição de 2014, que é cúmplice da corrupção da democracia que vivemos e que tem grande responsabilidade na crise econômica que vem esfacelando boa parte dos próprios avanços sociais que produziu. Mas discordo que tais manifestações recebam o rótulo de “defesa da democracia”.

Embora o governo atual tenha dado golpes no “soberano” (mentiu descaradamente na eleição de 2014) e nos direitos (apoio aos fascismos e aos racismos de Sergio Cabral, Pezão e Eduardo Paes no Rio de Janeiro, Lei antiterrorismo para criminalizar movimentos sociais, violências contra comunidades indígenas, engavetamento do projeto de democratização da mídia, roubo de dinheiro público), o processo de impedimento de Dilma me parece, de fato, uma tentativa de golpe institucional para destituir a presidenta e de golpe político contra Lula, candidato com chance à presidência da república em 2018. Parece um golpe no golpe. A “ponte para o futuro” de um eventual governo de Michel Temer, possivelmente um cenário pior que o atual, será a continuidade radicalizada do ataque aos direitos.

Os pólos em disputa são os que colocaram o país da atual situação de retrocesso social. Ao meu ver, os movimentos que se dizem em defesa da democracia, entre outras coisas, devem produzir uma narrativa das que se apresentam com ou sem impedimento da presidenta, devem buscar uma saída pela defesa da democracia de fato, que certamente não é o que representam o PT e seus aliados e adversários. Há uma fúria oposicionista contra o PT que vem violando regras, tudo provavelmente porque essa oposição não aguenta mais ficar fora do Palácio do Planalto, mesmo que o governo petista faça as políticas da casa grande. Mas o PT errou, aliou-se ao porcos, tornou-se porco, praticou os mesmos crimes, passou a corromper o projeto democrático expresso na carta constitucional, traiu a esperança e a confiança de muita gente, enfraqueceu a esquerda, produziu sua própria destruição.

No momento, vivemos o popular “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”, um cenário propício para que os movimentos em defesa da democracia radicalizem na luta pela constituição material dos direitos e pela revisão do sistema político e do modus operandi de algumas instituições, revisão que atuais políticos e partidos não podem fazer, pois que já demonstraram que na prática representam a corrupção da democracia e não são confiáveis, comprometidos que são com os interesses infames dos que os financiam.

Ao meu ver, se fossem, de fato, instituições republicanas, partidos e congresso nacional devolveriam ao soberano (o povo) a possibilidade de refazer as escolhas para a Presidência da República e para o Congresso Nacional feitas em 2014 sob o poder do dinheiro sujo e muitas mentiras, recompondo a representação para que esta discuta e execute uma agenda para tirar o país da encruzilhada que sustenta crise econômica e apresentar em 2018 instituições em condições de pensar o futuro. Se fossem minimamente republicanas, as atuais as nossas instituições políticas possibilitariam uma assembleia popular constituinte, sem a participação dos(as) atuais parlamentares, para que em paralelo seja feita uma revisão do sistema político, para o pós 2018. Mas as atuais composições dos partidos e do congresso não são republicanas e só fazem prevalecer os interesses infames que produziram a crise que vivemos.

O Brasil se vê numa crise produzida pela fome e pela vontade de comer. Mas o dia seguinte ao desfecho do processo de impedimento, que se aproxima, pode ser o dia do início de um movimento popular que assuma a luta por um novo sistema político minimamente decente, e retome bandeiras de radicalização democrática dos movimentos de 2013 e 2014, como transporte público, saúde e educação públicas de qualidade, escolas como pontos de culturas, acesso público às estruturas de informação e comunicação, democratização da mídia, salário de cidadania, orçamento participativo, intervenções urbanas que priorizem melhoria das condições de vida e não lucros para empresários, desmilitarização das polícias, continuidade do processo de promoção de igualdade, sexual e de gênero, respeito à vida e aos demais direitos. Falta muito ainda para termos um Estado Democrático de Direito, que só existirá a partir de um devir Ubuntu das lutas do trabalho vivo. “Organizar a nossa luta por nós mesmos é um imperativo da nossa sobrevivência” (Abdias do Nascimento).

Greves e resistências na atualidade da crise da representação

Sou professor, servidor público do Estado do Rio de Janeiro. Desde o início do ano acontece um embate com o governo do Estado, liderado por Luiz Fernando Pezão (PMDB), face aos atrasos nos pagamentos de salários que começaram dezembro/2015, ao parcelamento do 13º e ao pacote de medidas que o governador pretende aprovar na Assembléia Legislativa, que pretende uma Lei de Responsabilidade Fiscal que prevê, entre outras coisas, aumento da alíquota de previdência de 11% para 14%, congelamento de salários e outras “maldades”. Associa-se a isso o abandono pelo governo e as péssimas condições de trabalho em alguns setores importantes do serviço público, como educação e saúde. As manifestações e ocupações de escolas por estudantes denunciam o sucateamento.

Os(As) servidores(as) do Estado do Rio de Janeiro iniciaram um movimento de resistência, o MUSPE (Movimento Unificado dos Servidores Públicos Estaduais), que vem fazendo manifestações e propõe greve geral a partir de 06 de abril, caso o governo não recue em seu “pacote de maldades”. Professores(as) e demais trabalhadores(as) de educação da SEEDUC, FAETEC, UERJ, UENF, já estão em greve desde 02 de março. E outras categorias prometem greve a partir de 06 de abril.

Diante das covardias, aos ataques aos direitos e das mentiras que o governo Pezão vem promovendo, o movimento está forte e cada vez mais mobiliza servidores(as) e conquista apoios, como o importante apoio dos estudantes da educação básica, da educação profissional e da educação superior.

É um movimento diferente de greves anteriores. Deve ser visto como algo mais do que uma campanha salarial, algo além da justa preocupação com salários e condições de trabalho. Os(As) servidores(as) do Estado do Rio de Janeiro começaram a experimentar um pouco, só um pouco, do que as instituições que governam, legislam, arbitram, reprimem e ganham com o extermínio de vidas e com a exploração do trabalho, fizeram e fazem passar pessoas que vivem na Vila Autódromo, Maré, Alemão, Baixada Fluminense e outras regiões onde atuaram/atuam as forças armadas e as milícias do capital chamadas de UPPs. Estamos experimentando os efeitos de uma reestruturação das cidades e dos direitos bastante desfavorável à circulação, ao direito de ir e vir, à valorização da diversidade sócio-cultural, ao aprendizado para o bem viver, à produção de conhecimento e arte, ao acesso comum ao que é produção comum. E não duvido que a copa e as olimpíadas no Rio de Janeiro tenham sido compradas para viabilizar as operações em favor da especulação imobiliária, das empreiteiras, dos bancos, das empresas de mídia, telecomunicações, energia e transporte, do capital internacional, que passamos a assistir de 2007 até o momento. Estamos experimentando uma política que transforma tudo em mercado e mercadoria e que não tolera qualquer resistência ou pensamento divergente.

Nosso movimento insere-se num movimento social mais amplo, numa resistência popular necessária, iniciada pelos movimentos de maio e junho de 2013, pela lutas dos professores do município também em 2013, pelas lutas dos garis, pelos rolezinhos e outras lutas, brutalmente reprimidas em 2014 e 2015. O que está em risco é a vida, os direitos e a dignidade de quem vive do trabalho e realmente produz.

Há quem diga que Pezão é incompetente e faz uma péssima gestão. Eu discordo. O vemos e vivemos, ao meu ver, não é fruto da incompetência de um péssimo gestor, não é problema de gestão. É uma política de gestão, que articula ataques aos direitos, reorganização do Estado e do funcionalismo público e, se necessário, repressão e extermínio, para atender aos interesses do capital parasitário (são emblemáticos o “desaparecimento” de Amarildo, a condenação de Rafael Braga e a execução, pelo Estado, de 5 jovens negros “suspeitos”, com 111 tiros, para resgatar um caminhão da AMBEV). Um detalhe no pacote de maldades do governo Pezão me chamou a atenção: a proposta de colocar aposentados e pensionistas como “gastos com pessoal”, o que fará o poder executivo do Estado do Rio de Janeiro ultrapassar o limite de gastos com pessoal estabelecido pela lei de responsabilidade fiscal (49%) e abre a possibilidade de demissões, mesmo de concursados. E não se trata apenas de redução de despesas em função de uma conjuntura econômica, mas de um ajuste estrutural e também de uma política de enfraquecimento das lutas do trabalho, que ainda têm relativa força no funcionalismo público. Cabral, Pezão, Paes, Pirilo, Richa, Alkimim, Serra, Aécio, Lula, Dilma, a máfia dos Picciani, os achacadores Eduardo Cunha e Renan Calheiros e outros(as) corruptores(as) da nossa fraca democracia em construção (agora sendo interrompida), pagos(as) por grandes empresas, têm sido ótimos(as) gestores(as) para os interesses do capital parasitário.

O Rio de Janeiro parece ser o laboratório do que os donos do poder pretendem para o Brasil. O pacote de maldades do governo Pezão, por exemplo, é exatamente o que o governo Dilma apresentou ao Congresso Nacional para a ajuste fiscal e o alivio das dividas dos Estados com a União (vejam em http://fazenda.gov.br/noticias/2016/marco/governo-apresenta-medidas-de-reforma-fiscal). Pezão se antecipou? Dilma copiou? Não importa o que vem primeiro, pois tudo isso é fruto da aliança corrupta entre PT e PMDB. E talvez seja o Rio de Janeiro o laboratório do golpe contra a democracia que estamos assistindo. No Rio de Janeiro foi gestada a Lei anti-terrorismo proposta pelo governo federal e experimentadas violações de sigilo que a própria presidenta da república e seu partido agora experimentam.

Por isso, me coloco entre aquelas pessoas que pensam que a defesa da democracia não é a defesa de Lula, de Dilma, do PT ou da ordem constitucional, que juntos com a maioria dos políticos e dos partidos, infelizmente, passaram a integrar um modo de fazer política, histórico no Brasil, que é, este sim, a verdadeira corrupção da democracia. Além disso, apoiaram e participaram dos fascismos de Cabral, Pezão e Paes contra pobres e negros, inclusive com apoio a candidatura do espancador de mulheres Pedro Paulo para a prefeitura do Rio de Janeiro. Muito menos é a defesa de políticos, partidos, mídias corporativas, empresas, judiciário e ministério público igualmente corruptores da democracia, que trabalham para devolver o poder aos que o exerciam antes do PT, mesmo não sendo o PT uma ameça aos interesses das oligarquias.

A polarização entre PT-PMDB-aliados e PMDB-PSDB-DEM-aliados é só disputa por poder e, provavelmente, pela condução do mesmo projeto, que tem o patrimonialismo, o clientelismo, o autoritarismo e o racismo como pilares do Estado de Negócios nada Democráticos que é o Brasil, a mais de 500 anos. Sem que fosse acompanhado de reformas das estruturais necessárias, o processo de distribuição de renda promovido pelo PT se mostra superficial, se mostra esgotado e, pior que isso, entrou num curso de retrocesso e diminuição do poder de aquisição de bens e serviços, alguns essenciais para a saúde produtiva da economia.

Embora, ao meu ver, a condução coercitiva de Lula para um depoimento foi, de fato, uma ação não apenas questionável legalmente, mas uma ação política do ex-juiz e justiceiro Sérgio Moro e seus comparsas do Ministério Público, que se mostram alinhados aos que querem o politicídio de Lula, e talvez beneficiários de generosos pixulecos. Partidária e ilegal também foi a divulgação, pelo mesmo justiceiro e pela mídia corporativa, do conteúdo de gravações de conversa entre Dilma e Lula, bem como outras conversas de pessoas que sequer são investigadas.

Na suja disputa pelo poder que assistimos e que nos surpreende a cada dia, do meu ponto de vista, é evidente que há perseguição à Lula e ao PT, é evidente o monumental esquema de corrupção petista e bem provável a participação de Lula em tal esquema. Legais ou ilegais, algumas relações e atividades de Lula são, notoriamente, negócios que corroboram para o golpe na democracia que assistimos mais nitidamente desde a posse do governo federal, que passou a fazer o que disse que não faria na eleição presidencial.

Assim, ao meu ver, a defesa da democracia não é a defesa de um dos lados dessa falsa polarização, mas deve ser o êxodo dela, para a construção de alternativa e instituições verdadeiramente democráticas. A defesa da democracia é, no mínimo, a exigência de recomposição das nossas instituições com pessoas que assumam o compromisso com democratização das mesmas.

Os atuais “poderes” do Estado e seu operadores, na prática, não se mostram dignos de credibilidade. Um Estado Democrático de Direito deve ter instituições que garantam a dignidade, não instituições que a violem, como frequentemente fazem nossas instituições policiais, jurídicas, legislativas, governamentais e partidárias, que não são, ao meu ver, instituições a serem preservadas, mas a serem rediscutidas, transformadas e algumas até destruídas, se quisermos de fato defender a democracia. A democracia representativa no Brasil, que é a verdadeira corrupção da democracia, chegou num ponto crítico da sua própria crise.

Assim, penso as lutas dos(as) servidores(as) públicos(as) contra os ataques aos direitos, devem estar juntas as reais lutas constituintes de democracia, que são aquelas, que fora da falsa polarização corrupta, querem respeito aos direitos humanos, moradia, transporte, educação, saneamento e saúde de qualidade, remuneração digna, igualdade racial e de gênero, e um sistema político decente. Nós somos a nossa única esperança.

Chegamos ao início de 2016, ano de zika, olimpíadas e eleições

Chegamos no início de 2016. Passou janeiro, o carnaval e hoje, quarta-feira de cinzas, “desce o pano”. Amanhã retornamos à rotina. Segunda-feira, se houverem condições materiais, começam de fato as aulas nas escolas. E começamos o ano com uma grave questão de saúde pública para enfrentar, o zika vírus, além do que já estava na pauta, como impeachment, lava jato, zelotes, crises, olimpíadas, eleições, etc.

Tudo indica um ano difícil, com mais produção de inflação, desemprego e escassez de recursos, que justifique juros altos, políticas de austeridade, desinvestimentos em saúde, assistencia social, educação, pesquisa, infraestrutura e em outros setores, fruto das gestões corruptas de instituições públicas (que sequer se consolidaram) deste período destrutivo de neoliberalismo tucano e neodesenvolvimento petista, sempre apoiados/enquadrados pelo que há de mais fétido na política brasileira pós-constituição de 1988, o PMDB. Com ou sem processo de impeachment da presidenta, o golpe nos direitos já houve e vem se desenvolvendo desde de antes da gestão da atual presidenta, com privatizações, ataques aos direitos trabalhistas, entrega de serviços públicos a instituições de corrupção denominadas organizações sociais, aumento da exploração do trabalho via aumento de tarifas e impostos e, se reclamarmos muito, gás de pimenta, balas de borracha, prisões com provas forjadas, punições exemplares pelo poder judiciário e até extermínio pela polícia militar se quem reclama ou simplesmente for “suspeito(a)” por ser negro(a) e/ou morador(a) de favela. A máxima “não haverá golpe!” é, ao meu ver, só uma bravata numa disputa política meramente pelo poder. PSDBistas querem retornar, PTistas não querer largar, PMDBistas não se importam com quem governa, pois influenciam da mesma forma… E as políticas estruturais são as mesmas.

Sou do Rio de Janeiro e aqui o ano começa com o governo estadual anunciando um corte de 18 bilhões no orçamento (Veja em http://goo.gl/Q9jxYQ). Sou professor numa instituição que vem sendo destruída pelo governo Pezão/Pesão, através de uma (con)gestão autoritária e acompanhada por capangas armados que despreza a história, o projeto pedagógico da instituição e o próprio significado da palavra “educação”. No Rio de Janeiro, em nome da Copa, das Olimpíadas e agora “por culpa” da queda do preço do petróleo, bons serviços públicos têm sido destruídos e passou a valer tudo (e, é bom que se diga, que “tudo” tem muitas violações de direitos com aval do poder que deveria ser judiciário). Vale ignorar direitos fundamentais, expulsar pessoas de suas residencias em áreas agora cobiçadas pelo capital, vale segregar racialmente e impedir jovens negros de chegar nas praias da zona sul, vale assassinar pessoas negras e pobres “suspeitas” (e se não forem suspeitas há sempre armas à disposição para serem plantadas para fundamentar o auto de resistência), vale gastar muito com gás de pimenta, gás lacrimogênio e roupa de robocop para policiais atuarem contra os movimentos sociais (na verdade, contra os direitos humanos e a carta constitucional), vale deixar UPAs e hospitais sem nenhum recurso, vale deixar o aedes aegypti se proliferar, vale deixar estudantes sem merenda escolar e cartão de transporte (aqui chamado de “Riocard”), vale atrasar e congelar salários e direitos de professores, médicos e outros servidores públicos, e deixá-los sem as mínimas condições psicológicas e materiais para desenvolverem suas funções… Vale todas as violações em nome dos interesses econômicos que querem construir uma cidade olímPICA.

O museu, dito do amanhã, 40 dias após a inauguração, já apresentou avarias (Veja em http://goo.gl/AyUYbG), assim como aconteceu com o estádio do engenhão, feitos “nas coxas”. O camarote do governo do Estado no Sambódromo foi comprado pela cervejaria que ganhou 687 milhões de isenções fiscais do Estado por concessão Pesão e da maioria dos deputados (como disse um dos pouquíssimos deputados estaduais que talvez tenham algum compromisso com a democracia, Pesão, Peso Grande, não Pezão, pois trata-se do chefe de um grupo corrupto bem pesado para a população do Estado do Rio de Janeiro). Impostos, tarifas, juros, preços de produtos do dia a dia e dívidas aumentaram. Salários perdem mais capacidade de compra a cada dia que passa. Muita gente que chegou na dita “classe C” já se vê de volta às “classes” D e E. Servidores públicos em vários estados e municípios vivem as dificuldades impostas por atrasos de salários, calote do 13º e congelamento, sem falar naqueles, como os do Rio de Janeiro, cujo governo trabalha para reduzir seus salários. Mas Bradesco e Itaú realizaram seus maiores lucros, cervejarias e empreiteiras se dão bem com isenção de impostos no estado que mais perdeu arrecadação, as máfias lideradas por Cunha e pela “famiglia” Picciani ficam cada vez mais ricas, elegem e nomeiam cada vez mais “paus mandados” para defender os interesses espúrios que representam, e Pedro Paulo, o espancador de mulheres, cria do Eduardo Paes, será o candidato a prefeito do grupo mafioso que governa quase tudo no Estado, com o apoio do PT e a provável participação da ex-torturada Dilma Roussef no palanque de quem, de acordo com a lei Maria da Penha, deveria estar vendo o sol nascer quadrado.

Tudo isso em um contexto em que o mesmo descaso estatal que permitiu que a lama da Samarco matasse pessoas e ecossistemas em Mariana, permitiu a proliferação de um mosquito que transmite um tal de zika vírus que pode causar microcefalia em bebês em gestação e paralisia em adultos (síndrome de Guillain-Barré), o mesmo mosquito que, segundo uma daquelas falas de Dilma que revelam uma certa confusão governamental, “a gente tem de matar, de preferência antes dele nascer”(hum? Veja em http://goo.gl/nXFRgH).

Apesar do alerta da Organização Mundial da Saúde (OMS) de que a epidemia de zika vírus é um caso de emergencia internacional, aqui no país da gestão do público para interesses privados não só a secretária trabalho, assistencia social e cidadania da prefeitura de Petrópolis, mas todos(as) os(as) políticos, dizem “vai catar coquinho” todos os dias para a população que demanda atendimento médico público (Veja em http://goo.gl/4sjYmb). Sim, todos e todas que exercem cargos de poder sobre a vida nos nossos parasitários governos, parlamentos e órgãos que deveriam ser de justiça, gente boa ou não, são co-responsáveis pelo que prevalece nos seus discursos e atos: descaso, discriminação, desprezo e exploração das pessoas que trabalham para pagar “doações” de campanha e alguns confortos que o atendimento a determinados interesses proporciona.

Tornados ontologicamente canalhas pela dinâmica partidária e por uma sistema político que corrompe a proposta de um Estado Democrático, os(as) políticos(as) de carreira que hoje se digladiam numa disputa insana pelo poder não demonstram a menor preocupação com os impactos que seus atos e suas omissões causam na sociedade. Agem contra a democracia e as instituições ditas “democráticas” os(as) protegem. Do meu ponto de vista, o atual cenário de crise política não é o de uma disputa entre direita, esquerda e suas variações, por princípios e propostas, mas de uma disputa pela condução de nossa institucionalidade conservadora, produtora de desigualdades e muito lucrativa para seus gestores, que os partidos, quando no poder, acabam aderindo. Não há, portanto, neste cenário, sinais de abertura a possíveis novos processos de democratização. Mudanças lideradas pelos políticos de carreira somente aquelas dentro da “ordem” e suportáveis pelo nosso capitalismo parasitário e pelo próprio conservadorismo que prevalece na sociedade, como deixou nítido a repressão estatal e a grande reprovação social dos movimentos de 2013.

Sabemos, porém, que muitas das instituições que o discurso do poder diz que precisam ser preservadas são instituições que, para o bem comum, devem ser destruídas. A ocupação das ruas continua sendo uma forma de, pelo menos, demonstrar indignação. O voto também. Por isso penso que, diante da falta de alternativas confiáveis entre os partidos e os políticos de carreira que se apresentam, o voto NULO nas eleições municipais de outubro seria uma boa forma que dizer que o que aí está não tem legitimidade política e mostrar que queremos outra política, se realmente quisermos.

Mandioca de casca grossa

A semana que terminou e foi, praticamente, a semana de encerramento das atividades da economia e da política em 2015, começou com o aniversário da presidenta Dilma, que comemorou com a operação catilinária, com as manifestações organizadas por movimentos sociais de esquerda que apoiam ao seu governo e com um presente do STF, embora o mafioso Eduardo Cunha, detrator de Dilma e por isso corrupto do mal, já esteja articulando com seus paus mandados uma forma de virar o placar favorável ao governo neste momento. Joaquim Levy, que não tinha mais função no governo desde que o processo de impeachment virou realidade com apoio do “mercado” e que já vinha sendo fritado no governo e pelo corrupto do bem Renan Calheiros, resolveu voltar para o bradesco. Em tese é bom para o país que uma cabeça como a do Levy não esteja mais à frente do ministério da fazenda, mas na prática pode significar mais dificuldades para quem vive do trabalho, pois as oposições no “mercado” e no congresso podem ser maiores, e o governo além de ruim para a democracia, é fraco politicamente. O que Nelson Barbosa assumiu não foi nem um pepino, mas uma mandioca de casca grossa que nem a mais lubrificante das vaselinas funcionará e, por isso, deve ser transferida para a sociedade.

No Rio de Janeiro, Luiz Pezão e o Dom Picciani, fascistas aliados de Dilma, por isso corruptos do bem, chefiam a sangria de recursos do erário do Estado para bancos, empreiteiras, empresas de TV, telefonia, energia, “prestação de serviços”, OS e para o caixa de “recursos não contabilizados” do PMDB e partidos aliados, que custa direitos e vidas (sobretudo de pobres e negros), e resolveram tomar uma medida para pagar integralmente a segunda parcela do 13º dos servidores do estado, parcelada em 5 vezes: conseguiram que o bradesco empreste o valor aos servidores como “adiantamento” das parcelas restantes. Na verdade, são os servidores que emprestam ao governo. Quem não quiser o “adiantamento”, segundo o jornal O Dia (http://goo.gl/iFXpeK), vai até receber as parcelas com um jurinho para “compensar”. Muito pior que isso são as medidas que buscar reduzir recursos para a educação e as pesquisas científicas (PEC 18/2015). No Rio de Janeiro, cujo governo diz não ter dinheiro para nada “por causa da dependência econômica que o Estado tem da Petrobrás”, estamos assistindo a uma cínica e infame sangria de dinheiro público, que custa vidas e direitos, feita pelos gestores do governo e seus sócios políticos e empresariais: 39 milhões para supervia, bilhões de isenções fiscais e 5 vidas de jovens negros para a AMBEV (sem falar nas vidas interrompidas pela política de “segurança” para viabilizar interesses de empreiteiras, bancos e empresas de telefonia, energia, TV a cabo, etc), fim de instituições públicas para viabilizar privatizações de serviços (e transferências de dinheiro público para “prestadoras de serviços”), milhões do Fundo de Saúde da Polícia Militar para empresas especializadas em corrupção (cujos verdadeiros donos devem estar na ALERJ e nos prédios do governo), através de licitações fraudadas, que renderam boas propinas para caixa de “recursos não contabilizados” de oficiais da PMERJ, políticos e partidos.

Com ou sem processo de impeachment da presidenta, a frase “não vai ter golpe” chegou bem atrasada, pois a esperança foi golpeada e nocauteada logo no início do ano, tal como o José Aldo, pelo peemedebismo petista e pelas máfias partidárias da oposição, que insistem numa falsa polarização que é nada mais que disputa pelo poder de projetos semelhantes, um mero terceiro turno pós-eleitoral. Em 2015 foram muitas mentiras e arbitrariedades governamentais em Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Paraná, Goiás e nos estados da federação, foram muitas ações de um banditismo conservador-militar-cristão no congresso, muitas disputas políticas do STF (com belas fundamentações técnico-jurídicas), algumas perdas de direitos trabalhistas, ataques aos direitos de povos indígenas e tradicionais, muitos jovens pobres, negros(as), assassinados e estudantes agredidos pelo Estado, retrocessos nas políticas de educação, de ações afirmativas, de saúde e de “segurança”, aumento do desemprego no setor privado e atrasos de salários em diversos entes do setor estatal, agravado por um voraz aumento de preços de produtos, serviços e impostos. Já estamos pagando mais por menos direitos e respeito. O mar de lama que a corrupção da democracia não conseguiu conter vazou na sociedade e está intoxicada pelos atuais partidos políticos, que estão contaminados pelo peemedebismo, a praga devastadora das poucas possibilidades democráticas da política brasileira. Já houve golpe.

De qualquer forma, mesmo com pouco ou nenhum dinheiro no bolso e com a saúde vendida para as “organizações sociais”, vale comemorarmos Natal e Reveillon, e curtirmos férias e carnaval, pois depois da quarta-feira de cinzas, quando “desce o pano” como diz o poeta, é provável que daremos de cara com uma situação pior que a de hoje na economia e na política. Os(As) políticos(as) e partidos canalhas que se digladiam a favor ou contra o impeachment, todos(as) contra a democracia, não têm a menor preocupação com os impactos que causam na sociedade os seus embates, atos, articulações, omissões e contas na suíça administradas pelo André Esteves e o irmão do Eduardo Paes.

No Estado Brasileiro não parece haver instituição que mereça ser preservada. Estamos num labirinto em que só a antropofagia pode encontrar saída.

Quantas vidas vale um caminhão da AMBEV e os interesses dos que exercem poder?

A ultima semana foi “tensa” e começou tristemente, com 5 meninos negros deliberadamente assassinados pela polícia militar do Estado do Rio de Janeiro, uma instituição infame e racista, com práticas da ku klux klan e do estado islâmico. Neste triste caso há um dado alarmante: na ação de exterminio da ku klux klan azul do Estado do Rio de Janeiro, segundo matéria do jornal O Dia, os agentes da instituição criminosa agiram para “recuperar a carga de um caminhão da cervejaria Ambev, que estava sendo saqueado próximo ao Morro da Lagartixa”. Vejam a serviço de que atua a nossa ku klux klan azul, e vejam do que é capaz essa instituição criminosa, provavelmente, pelo arrego que ganhariam os envolvidos na ação (dois oficiais que deram as ordem de recuperar o caminhão e os quatro pistoleiros, todos do 41º batalhão, segundo a reportagem). Pezão e Beltrame, como sempre, com o cinismo que deixa nítido seu desprezo, mostraram “indignação”. O governo Dilma ficou calado, como costuma fazer em casos semelhantes. E o comando da PM, também como costuma fazer, vai “apurar a conduta dos maus policiais”, como se a ação fosse pessoal e não institucional. E nós nos perguntamos: Quanto vale um caminhão da AMBEV?

Na política, o destaque foi o aceite do pedido de impeachment da presidenta Dilma, pelo presidente do lixão de Brasília, o mafioso Eduardo Cunha. Uma vergonhosa represália do mafioso que causará ainda mais problemas para o país e, provavelmente, tornará mais alta a conta social que os que vivem do trabalho já estão pagando. Do outro lado, a presidenta honesta que mentiu para se reeleger, em seus discursos pós-aceite do pedido de impeachment, se diz o bem que reagirá contra o mal. A lama podre represada na praça dos três poderes vazou e estamos sentindo o seu componente mais tóxico, o PMDB, partido que no Rio de Janeiro mata pobres e pretos com apoio do PT, que por sua vez tem feito as mesmas coisas (o governo petista da Bahia é outro que parece não se importar com os crimes da polícia militar racista daquele Estado). Nada diferente do que faz a aliança PDSB-DEMo em São Paulo e no Paraná. Quanto valem os interesses dos que exercem poder?

Nossa democracia representativa (governos, parlamentos, partidos, sindicatos, associações), cujas pessoas que
ocupam os cargos, a maioria delas, não têm respeito ao fato de terem sido eleitas, cada vez mais se apresenta como “corrupção da democracia”. Novas instituições devem ser inventadas, instituições que de fato expressem em discursos e práticas a multiplicidade de singularidades, além de bancos, empreiteiras e da sua própria sobrevivência. As “crises” que se apresentam no Brasil são, no fundo, componentes dessa crise da representação.

O ciclo que foi inaugurado em 2013 não terminou e continua tentando abrir brechas e ampliar a democracia. Esse ciclo não foi só a potencia das grandes manifestações de junho/13, continuou e continua nas greves dos professores do Rio em 2013, nos rolezinhos, na greve dos garis, nas lutas dos povos indígenas, nas manifestações contra a copa, nas marchas contra o racismo e o extermínio estatal de jovens negros, na luta dos estudantes de São Paulo em defesa da escola pública.

“Eu até acho que eu sou afrodescendente de tanto que apanhei e gosto de apanhar”

Meu Avô costumava usar a frase “apanhou feito boi ladrão!”. Dunga, ex-jogador de futebol bem sucedido e técnico fracassado da seleção brasileira na Copa do Mundo de 2010 e na Copa América de 2015, inovou ao substituir “boi ladrão” por “afrodescendente”, acrescentando que negro gosta de apanhar. Na última sexta-feira, 26 de junho, com a arrogância que lhe peculiar, durante uma entrevista, Dunga disse: “(…) Eu até acho que eu sou afrodescendente de tanto que apanhei e gosto de apanhar. Os caras olham para mim: ‘Vamos bater nesse aí’. E começam a me bater, sem noção, sem nada” (grifos meus). Veja a declaração de Dunga em em https://www.youtube.com/watch?v=0v4piF37jA4.

No mesmo dia, provavelmente após umas puxadas de orelhas em Dunga, a CBF publicou uma retratação do técnico: “Quero me desculpar com todos que possam se sentir ofendidos com a minha declaração sobre os afrodescendentes. A maneira como me expressei não reflete os meus sentimentos e opiniões“ (grifos meus). Embora o pedido de desculpa diga que a declaração reveladora do seu pensamento sobre a pessoa negra não reflete o que ele sente, na opinião de Dunga:
1) Escravo = Afrodescendente
2) Afrodescendente deve apanhar por que é afrodescendente e porque gosta de apanhar (nem boi ladrão gosta de apanhar, mas negro gosta).

Além disso, no texto de retratação publicado no site da CBF, Dunga pede desculpa apenas a quem se sentiu ofendido. Talvez eu esteja sendo muito exigente e muito professoral, mas penso que o pedido de desculpas devia ser ao Brasil, principalmente para as crianças, pois trata-se de uma declaração que ofende um propósito que consta na Carta Constitucional, no Código Penal, no Estatuto da Igualdade Racial, na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Na verdade, penso que a CBF, que diz repudiar o racismo, não deveria manter Dunga como técnico da seleção após declaração que desrespeita mais da metade da população brasileira.

Em tempo: Peço a Dunga, caso deixe a CBF, que não tente ser instrutor da Academia da Polícia Militar ou da Escola de Magistratura, pois as consequências serão muito piores do que ter a seleção brasileira eliminada pela Alemanha ou pelo Paraguai.